O nosso privilégio manifesta-se todos os dias. Recentemente, em quinto lugar na lista de artigos mais lidos do dia de um jornal estava um artigo sobre sumos detox de melancia. Mas o que tornou isto interessante é que logo acima no quarto lugar estava uma receita de tarte de leite condensado e natas. Pensei que era uma boa representação da humanidade. Struggle is real. E é. Mas por outro lado, não será uma preocupação para a maior parte da população mundial...Por exemplo, também há pouco tempo estava a ver um vídeo e comecei a pensar que isto da auto-ajuda requer sempre um certo de nível de privilégio, às vezes muito. Não sou o melhor público para este tipo de livros.
Nunca li nenhum tirando uma coisa chamada Profecia Celestina que apareceu cá em casa num saco e que era suposto mudar a minha vida, mas que entretanto já despachei. Não me lembro do conteúdo. Do que me lembro é que há anos li um livro, uma sátira que girava em torno de um título tipo auto-ajuda que realmente resultava - e ficou-me na memória uma cena em que o protagonista atira um monte de revistas [daquelas para senhoras] e chocolates para a frente de uma personagem feminina, desesperado para que ela volte a ser um humano normal. Em particular os livros que nos tentam enfiar a chamada positividade tóxica pela garganta abaixo, fazem-me lembrar uma série que costumava ouvir e que nas primeiras temporadas tinha uma cidade em que toda a gente soava alegre e positiva mas depois tinham sangue e tripas a escorrer pelas paredes.
Não deve ser esta a imagem que quem escreveu os livros deseja que eu tenha. Sou uma degenerada. Vendo bem, não é toda a gente que pode colocar todos os seus bens num monte e ver quais os que lhe trazem alegria, fazer um retiro na Índia ou acordar meia hora mais cedo para fazer exercício e escrever num diário. Hoje em dia há agendas\diários para registar tudo: leituras, crescimento pessoal, mudanças, até para registar os nossos sonhos. Ideia interessante, embora me pareça perfeitamente exequível num caderno qualquer - o capitalismo aproveita-se de tudo. Não estou a pisar nas vossas leituras e nos vossos hobbies, apenas reflectindo aleatoriamente. Não sou exemplo, paniquei um pouco porque achei que ia ficar sem água por um dia.