“Prolixidade” poderia ser definida como uma das características mais marcantes da nossa cultura contemporânea, e que consiste, basicamente, em empregar o maior número possível de palavras ao tentar exprimir verbalmente uma idéia, por mais simples que esta seja, sendo que essas palavras, em sua maior parte, submetidas a uma análise fria e objetiva, revelam-se como totalmente desnecessárias ao contexto, uma vez que não são indispensáveis para que o leitor consiga apreender a idéia exposta.

O exemplo acima talvez deixe claro para o leitor o quanto é fácil mergulhar nas ondas sedutoras do miolo-de-pote. A conversa que não diz nada, a encheção de linguiça, o nariz de cera. 

Jornalista adora isto, político mais ainda, e escritor, este então nem se fala. Grande parte da nossa literatura (não falo da paraibana; falo da literatura mundial) foi posta de pé por indivíduos que nasceram com esta mais terrível das maldições: a facilidade para escrever. 

Tem gente que escreve sem fazer esforço. Escreve como quem passeia, como quem cantarola, como quem respira. Não existe maior embriaguez para a alma do que fazer uma coisa com facilidade. 

É como esses jogadores que têm jeito para driblar. O cara pega a bola na intermediária, sai driblando na direção da área, mas aí a zaga o encurrala, e ele volta, driblando ainda, rumo sudoeste, passa por dois companheiros sem vê-los, faz um zigue-zague, dribla mais dois, passa perto da órbita da meia-lua, recebe combate, volta driblando para o meio de campo... 

Uma vez, quando Renato Gaúcho jogava no Flamengo, contei doze dribles sucessivos, nenhum dos quais na direção do gol.

Umberto Eco tem algumas páginas interessantes sobre a estética literária do romance de folhetim. Ele sugere que aquele estilo, cheio de rodeios, repetições e encheções de linguiça, tinha não somente a finalidade de ajudar o autor a encher as tantas páginas que precisava entregar por dia ou por semana. Aquele era o ritmo narrativo do folhetim, onde o autor se deleita em prolongar o prazer da escrita, e o leitor faz o mesmo com o prazer da leitura. 

A consequência disso, contudo, foi que cada geração de narrativas saía mais adiposa do que a anterior, e foi precisa a lipoaspiração modernista para acabar com tanto “arrodeio”. 

Os romances britânicos do século 19 tinham em torno de 500/600 páginas. Vai ver que a ascensão do conto como gênero literário, nestes 150 anos, foi uma espécie de reação a modelos tão caudalosos.

A prolixidade, em si, não é um defeito. Ela pode ser usada com função estética. Cervantes é prolixo, Rabelais é prolixo. Guimarães Rosa, que trabalhava com este mesmo software de origem barroca, começou prolixo e foi afinando. 

O que ocorre é que entre nós, no País dos Bacharéis, há um número desproporcionalmente elevado de prolixos sem talento, prolixos insuportáveis, prolixos que não dizem nada; lê-los é caminhar numa estrada pedregosa que dá voltas e voltas e nunca chega a lugar nenhum.