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Em sua nova obra, Quintanilha mistura um realismo que vem do cotidiano, das ações do dia a dia à estilização das falas e dos costumes dos morros

Bruno Pernambuco

Um relato de três gerações de mulheres- uma das quais ainda está por aparecer para o mundo- constrói a narrativa de Escuta, Formosa Márcia, novo livro de Marcello Quintanilha publicado pela Editora Veneta. Jaqueline, filha da protagonista homônima da musa que inspira a marchinha de carnaval de onde é tirado o título da obra, é o fio condutor que leva da história íntima, de uma cisão familiar, até um retrato cheio de ação da criminalidade nos morros do Rio de Janeiro, das relações escusas e íntimas da polícia dentro do tráfico, e da forma como, mesmo que amortizados e escondidos, os sonhos e os desejos das pessoas comuns continuam a viver sob a guerra que se impõe.

Em sua nova obra, Quintanilha mistura um realismo que vem do cotidiano, das ações do dia a dia à estilização das falas e dos costumes dos morros que é explorada em obras como Cidade de Deus e Tropa de Elite, e uma denúncia social- da exclusão, do racismo e da violência contra a mulher- a momentos de introspecção de seus personagens. 

Personificando a tensão entre esses pólos, que trazem vida e dinamismo à trama, está Márcia, mulher negra, mãe, enfermeira e moradora de uma comunidade no Rio, cujas experiências e reflexões compõem a trama da graphic novel. Sua relação com Jaqueline, a filha com quem divide a casa, é o conflito inicial da obra, que desde a primeira página do livro coloca o que está prestes a acontecer, e o envolvimento da jovem com o tráfico é o estopim para as ações que compõem a trama.

Cores Brasileiras

Apenas sete cores compõem as ilustrações de Escuta, Formosa Márcia. Tons berrantes, fora das cores que são geralmente usadas em uma representação realista, são utilizados para dar à história uma identidade inconfundível, e essa escolha, ao abrir mão da representação naturalista, evoca novos sentidos do tempo e do lugar em que se passam os fatos narrados.

A técnica do quadrinista, na utilização desses elementos básicos, é impecável- tons vermelhos e azuis descrevem o movimento de cenas cheias de ação, enquanto os roxos, da cor da pele dos personagens negros, trazem emoção e refletem o interior de seus personagens- especialmente naqueles quadrinhos que funcionam como um closeup de um filme, se aproximando da expressão. Essa paleta é utilizada com propósito, fazendo com que os personagens se destaquem  e assumam a centralidade da ação, e permitindo que múltiplas formas de ação surjam desse esquema simples.

No desenho das cores estilizadas, uma diferença na cor da pele das personagens- imitando, nessa verossimilhança, os sentidos impostos por essa distinção na realidade material- se mantém, e esse é um recurso em diferentes oportunidades utilizado pelo autor para revelar a personalidade de personagens que são apresentados. As figuras brancas aparecem com um tom de pele esvaziado, azulado, em geral vestindo uniformes monocromáticos, sem contrastes, e nos espaços de alto padrão onde circula a maioria desses representados, cercados por cores calmas, em tons pastéis. Os espaços da comunidade, ocupados por negros, são por sua vez abertos, retratados com múltiplos elementos que ocorrem simultaneamente, e em combinações berrantes das cores básicas utilizadas pelo quadrinista nas quais se destacam o amarelo e o verde dos elementos naturais. As escolhas de Quintanilha sabem reforçar aquelas situações que definem as vidas de seus personagens, ao mesmo tempo, a partir disso, construindo imagens que evocam outro tempo, e uma experiência fora dessas definições. Isso pode ser visto na ironia com que são retratados os espaços de dinheiro e poder, e na centralidade que é dada para a intimidade e para as reflexões dos personagens.

Os barulhos da paz

Ao final da obra, Márcia faz as pazes com seu pastor. Fazer as pazes com Jaqueline, aceitar a vida de avó (onde apesar de tudo se encontra a formosidade), mesmo com a ilegalidade da igreja que será fundada e dos negócios da filha, é consumar o ato de saber morrer, que na marchinha se aprende após o suspiro de amor.

Marcello Quintanilha propõe uma resposta estilizada, e que bebe em fontes diversas, da cultura pop e da denúncia política, ao questionamento, aberto, de como utilizar o veículo dos quadrinhos para tratar de assuntos que tradicionalmente pertencem à ficção escrita. Se em alguns momentos parece que os diálogos do livro são simples, ou que certas situações se resolvem com demasiada rapidez, é porque tudo é pautado pela ação- como em um bom quadrinho. 

Imagens criadas pelo quadrinista- como a que aparece num sonho vivido por Márcia depois de confrontar Jaqueline- são extremamente evocativas, preenchem a história que é contada e trazem uma densidade única para o livro. Essas representações ampliam o sentido da história que é contada, ao aproximar o leitor, de um modo que se faz sentir na pele, da experiência de Márcia, em sua impossibilidade física e em sua verdade psicológica.

Uma obra, assim, fundada em uma realidade que é inegavelmente brasileira, e que dirige o olhar ao lado de vivências e sentimentos que muitas vezes não são vistos, na vida de quem muitas vezes é sumida sob a ideia tipificada de cuidadora, Escuta, Formosa Márcia, é uma obra de uma voz única, através de seu traço e de suas cores. É um livro que, como o CD que guarda uma música querida, é para ser visitado muitas vezes- até riscar.

Escuta, Formosa Márcia

Marcello Quintanilha

128 páginas

Veneta

2021