Havia na praia algo de diferente que ela não sabia como explicar, mas era ali que se sentia mais completa, menos só. Talvez fosse o calor que a areia expelia em diass em que sol se fazia refletir queimando-lhe a sola dos pés. Ou talvez fosse o som das ondas a ir e voltar, o mar como que inspirando e expirando. Costumava tentar acertar a sua respiração com o mar, num jogo em que perdia na maioria das vezes. Gostava de estar sozinha na praia - ou de se imaginar sozinha, mesmo rodeada de gente. Fechava os olhos e o barulho das vozes à sua volta começava a ficar cada vez mais distante. Não adormecia. Ficava consciente de si, concentrando-se no barulho do mar, sentindo-se quase que embalada pelas ondas, como se estivesse à deriva.
Hoje, especialmente, não havia por ali ninguém e Amélia apreciava daquele silêncio quase absoluto. Hoje era mesmo disso que ela precisava. Estar ali, sozinha, com apenas os seus pensamentos como companhia. Chorar fazia quase sempre parte deste ritual, mas a água do mar ajudava a disfarçar os olhos inchados e vermelhos. Se não os tivesse perdido, a sua vida seria diferente. Como seria? Não. Não quer imaginar, tenta afastar essa ideia, mas ela sempre a atomenta! Como seria se? Mas não é, eles já não estão aqui. Não há forma de os trazer de volta. E no seu canto, Amélia chora, fazendo-se renascer. Uma nova Amélia, com uma nova vida para enfrentar...
Elsa Filipe