notas literárias out'24
trilha sonora literária, curadoria musical, estética do cotidiano, literatura contemporânea, narrativa introspectiva
Fotografia da minha autoriaA banda sonora de uma viagem literáriaUma playlist semi outonal, que tanto acompanhou a melancolia dos dias, como lhes conferiu alguma vivacidade. Num período em que o que me sabe bem ao chegar a casa é vestir roupa confortável e preparar uma chávena de chá, sinto que reuni aqui um conjunto de temas que embalam bem esse aconchego de final de dia.o quarto rosa, francisca cameloCome Back To Earth, Mac Miller ▫️ Os versos «I just need a way out of my head/I'll do anything for a way out of my head» principiam um dos meus poemas favoritos do livro. Por esse motivo, e por considerar que também evidenciam a vulnerabilidade e a viagem intimista que a autora construiu em verso, optei por associar o tema de Mac Miller a toda a obra.tudo pode ser roubado, giovana madalossoAbsolute Beginners, David Bowie ▫️ A dado momento da narrativa, a protagonista revelou que adora esta música. Por razões óbvias, fui ouvi-la e consegui compreender: não só por causa do ritmo que inebria, mas também pelos versos que dão a entender que não tem muito para oferecer, mas que, mesmo assim, não perde um tom utópico. Se calhar, somos sempre iniciantes, e acho que a personagem do livro se revê nessa imagem.intermezzo, sally rooneyTimmy’s Prayer, Sampha ▫️ Perdi-me de amores por esta canção, quando a encontrei numa playlist dedicada ao livro de Sally Rooney, e rapidamente percebi que não ia procurar por outra. Acho que a melodia traz algum conforto, mas as palavras do artista pesam tanto como os pontos de vista de Peter e Ivan. Além disso, creio que a letra também nos transporta para a necessidade de serem ouvidos, para a necessidade de encontrarem o seu lugar e para a noção de perda. «Em algum lugar no início tivemos tudo bem», mas essa não é a constante e eles sentiram-no na pele. Revi mesmo muito da história nestes versos.lunário, al bertoSharkey’s Day, Laurie Anderson ▫️ Esta música tem uma sonoridade esotérica, que me parece muito alinhada com a energia do livro e a personalidade do grupo representado. Além disso, traz uma carga emocional densa, que também acompanha o estado de espírito das personagens, e os versos «e se eu pudesse lembrar desses sonhos/eu sei que eles estão tentando me contar» são muito fiéis ao que fui lendo. Numa mistura de temas e sensações, acho que esta canção e este livro combinam muito bem.erosão, gisela casimiroErosão, Jasmim ▫️ Por curiosidade, pesquisei pelo título no Spotify e acabei por me cruzar com este tema. Gostei muito da sonoridade leve, e igualmente soturna, a evidenciar o nosso lado melancólico, e da letra que nos vai contando uma história, acompanhando a identidade que Gisela Casimiro deixa transparecer nos seus poemas. Além disso, canção e livro partilham uma viagem de autodescoberta e a liberdade de ir. E nós, enquanto leitores, vamos para onde ambas nos levarem.criaturas extremamente inteligentes, shelby van peltFrom Eden, Hozier ▫️ A melodia remeteu-me para a energia oscilante dos acontecimentos, mas acho que o que me fez mesmo associar a canção foi o facto de ter reconhecido Tova em muitos dos seus versos. O livro não é apenas sobre ela, mas une várias pontas soltas e, por isso, «há algo de trágico», «há algo de mágico» nela. Além disso, há solidão, familiaridade e a sensação de nos irmos vendo ao espelho.aqui em volta de mim, francisca cameloA Próxima Viagem, Cassete Pirata ▫️ Fica sempre muito por dizer quando há tantas histórias partilhadas, tantas memórias de um passado não tão longínquo, que deixa sempre uma porta aberta para o futuro. Todas as mulheres que falaram com Francisca Camelo mostraram as amarras, a tentativa de não ceder, as viagens que ficaram por fazer e a vontade de esperar «outro sol nascer». Há quem gostasse de partir, há quem continue a querer «ficar nesta paragem». Por isso, só podia ser este o tema escolhido.pequenos mundos, caleb azumah nelsonSweet Life, Frank Ocean ▫️ Este livro merecia uma playlist só sua, porque transborda música em todas as páginas. Ainda assim, apesar das infinitas referências tentadoras, acabei por escolher o tema de Frank Ocean, porque acho que mistura a serenidade que o protagonista começa a sentir e a constante vontade de dançar - e dançar é o que nos salva. A vida nem sempre foi doce, no entanto, também houve alturas em que foi tudo o que ele imaginou que seria.
Texto originalmente publicado em Entre Margens