Marguerite Duras assumiu a tarefa de escrever Hiroshima, meu Amor, num avesso da palavra, um espaço negativo.

“Em Hiroshima nada foi ‘dado’. Uma determinada aréola tem de rodear cada gesto, cada palavra, com um sentido suplementar ao seu sentido literal”, diz a atriz francesa, uma das personagens de Hiroshima, meu amor, num dos diálogos iniciais do filme É nesse lugar que Marguerite Duras assumiu a tarefa de escrever a trama do filme, uma obra que mistura linguagens e foge das convenções da trama cinematográfica- nesse avesso da palavra, nesse espaço negativo.

Em abril, a Editora Relicário lança uma nova tradução, feita por Adriana Lisboa, do roteiro escrito pela autora francesa, que foi filmado por Alain Resnais. A edição ressalta a poesia dos diálogos de Hiroshima, meu amor, sua originalidade, seu sentido único. Por não vermos as personagens enunciando as palavras, e faltarem, também, as outras referências visuais apresentadas no filme, as palavras ganham uma nova reverberação, ecoam no espaço em branco da página.

A ausência da representação visual permite novos ritmos, outras cadências na leitura do roteiro. Não se encontra em Hiroshima, meu Amor uma experiência tradicional de leitura, mas esses efeitos são parte constituinte da obra, e fazem possível enxergar, em sua leitura, elementos de um processo de escrita a respeito do qual Marguerite Duras refletiu longamente.

Nada duas vezes

“Você não viu nada em Hiroshima”, diz o arquiteto japonês à atriz francesa, sua amante, na famosa sequência de abertura de Hiroshima, meu Amor. A impossibilidade de assumir aquilo que é visto, a impossibilidade da representação, a distância imbuída nos meios, da palavra ou da gravação em filme, são os paradoxos abertamente explorados nessa primeira montagem, e desenvolvidos ao longo de todo o filme.

Na versão escrita do roteiro, essa distância se torna outra: muitas vezes um leitor se pegará associando o que é escrito à obra de Resnais, induzindo, na memória, mais uma película que acessa o conteúdo do sentimento e ao mesmo tempo o distancia, o afasta do contato imediato. Esse distanciamento em relação à imagem, e a simultânea aproximação à concretude do texto, torna a leitura de Hiroshima, meu Amor uma experiência muito particular.

É necessário circundar o nada, no método utilizado por Duras para escrever este roteiro que se tornou tão conhecido. Não é que se trate de uma representação do nada, mas é preciso escrever com uma face voltada para ele, como se fosse ele o centro do rodamoinho no qual a história dos personagens se desenvolve. Agita-se em seu entorno um tempo circular, que sobrepõe acontecimentos no passado e presente, e diferentes ângulos da mesma imagem. O vazio se torna pilar, elemento constitutivo da elipse agitada que se forma em torno dele.

Incorporando a escrita

“Escrever é também não falar. É se calar. É berrar sem fazer barulho”, aponta Duras em Escrever, recentemente, também, reeditado pela Relicário. Essa definição, assim como outros elementos que fazem parte da reflexão de Duras sobre o meio da escrita, se fazem ver claramente no estilo do roteiro de Hiroshima. 

As elipses colocadas entre aquilo que é descrito nas falas, embora não tenham o apoio da imagem como na obra cinematográfica, produzem interrupções numa leitura corrida que alteram o sentido do texto. 

Momentos de pausa e de imaginação por parte do leitor são criados pela ausência de descrições e de conectivos diretos entre a fala dos personagens, e essa mudança forçada no tempo da leitura é parte viva do texto, organizando o sentido da sobreposição de imagens.

É impossível ler Hiroshima, meu Amor sem ser capturado pela história de amor entre o arquiteto japonês e a atriz francesa, e isto se dá por conta de mais um aspecto que é refletido por Duras em Escrever: uma escrita pautada na presença do corpo, e na sua mobilização no processo de escrever.

O que se sente, através dos diálogos dos personagens- estruturados quase como declamações, como diálogos de surdos- é um efeito que se faz tão presente no corpo, nele é tão assimilado, em parte pelas marcas que se revelam no texto desse processo corporal posto na escrita. É como se o leitor sentisse essa entrega do corpo colocada na escrita de Hiroshima, e revivesse essa experiência a partir de imagens suas.

Essa aproximação fundamental- de que quem lê se aproxime do processo de escrita, e assuma de forma única o encontro com a obra- é uma marca de que naquela que seja talvez a obra de Marguerite Duras mais conhecida do público brasileiro, suas reflexões a respeito do ato de escrever se realizam de uma forma única. Apreciar o roteiro de Hiroshima, meu Amor, em sua originalidade, é uma forma também de celebrar a visão poética de Alain Resnais, e ler a história em conjunto com a visão da autora a respeito de seu ofício, e de sua forma de se expressar, pode levar a uma nova travessia desse caminho que se marca  o corpo, e que se faz novo com cada visita.

Hiroshima, meu Amor/Escrever

Editora Relicário

Traduções: Adriana Lisboa (Hiroshima) e Luciene Guimarães de Oliveira (Escrever)

pp. 196/144

R$ 57,90/ R$ 55,90