Ana Martins Marques/divulgação Os poemas da nova coletânea da mineira revelam como momentos efêmeros e elementos já inexistentes retornam por meio da linguagem Giovana Proença A poesia de Ana Martins Marques é a expressão máxima da versificação do ordinário. A fórmula, já conhecida nos volumes anteriores de Marques, Da Arte das Armadilhas, O Livro das Semelhanças e A Vida Submarina – reeditado e de volta às prateleiras este ano – conquistou uma legião de leitores, sempre dispostos a compartilhar em seus stories os melhores versos da poeta mineira. A força da singularidade poética de Ana retorna em potência máxima no recém-chegado Risque Esta Palavra. Amor, viagem, linguagem e até mesmo o ato de fumar transitam entre a banalidade e o sublime. Os dois polos simbolizam a tensão da forma. Ana se apropria do prosaico enquanto tece poesia. Versos livres, longos, curtos e entrecortados compõem o mosaico do volume, em ritmo único. Uma experimentação possibilitada pelo ímpar momento poético do século XXI, moldado pelo trabalho dos maiores nomes do nosso modernismo, cuja influência se arrasta pelo último centenário, culminando na obra de poetas como Ana Cristina Cesar, e a profusão de nossas versificadoras contemporâneas – dentre as quais Ana Martins Marques se destaca. O livro se divide em quatro seções: “A porta de saída”, “Postais de Parte Alguma”, “Noções de Linguística” e “Parar de Fumar”. Vale mencionar a escolha arriscada dessa última, visto que o cigarro se tornou um locus um tanto quanto saturado na literatura – vide duras as críticas aos moldes “Bukowski” de escrita. Mas Ana reinventa bem o fumo queimado, e cria belas imagens. Grande ganho à nossa poesia são por exemplo, os versos de Marques sobre Wisława Szymborska , poeta polonesa vencedora do Nobel de Literatura de 2016. “Mas a foto de que mais gosto é mesmo aquela: com a cabeça jogada para trás e o ar de quem não está ali de todo soprando para cima a fumaça que se mistura com seus cabelos brancos” Ana Martins Marques demonstra mais uma vez a exímia artimanha arquitetônica na construção poética. Em reinvenção da tragédia shakespeariana, personagem símbolo do desfortúnio feminino sobrevive em “Ofélia aprende a nadar”, salva pelas palavras que a fundem à água, sua assassina na história original. Aliás, fascinante é o tratamento da temática marítima dentro da obra da poeta mineira. Mas afinal, “as viagens são daqueles /que nunca deixaram sua aldeia/ como as fotografias por direito pertencem/ aos que não saíram na fotografia/ – é dos solitários o amor,” escreve Ana n’O Livro das Semelhanças. Distâncias são diluídas em Risque Esta Palavra, “Assim como a Boêmia/ também Minas faz fronteira com o mar”. Em outro brilhante poema da nova coletânea, a poeta descreve um café com a Medusa, mítica figura grega. Os poemas de Risque Esta Palavra são a transcrição da ausência, traduzida na presença da palavra. Momentos efêmeros e elementos já inexistentes retornam por meio da linguagem. As palavras justapõem momentos opostos: “Nos encontraríamos/ simultaneamente/ mais gordos e mais magros/antes e depois do divórcio” . Os próprios cigarros são um símbolo do tempo. A fumaça se esvai, e Ana brinca com o nome de seu novo livro “(seria talvez necessário agora/ riscar todos os meus versos/ com a palavra cigarro)” . Autor Ana Martins Marques Editora Companhia das Letras Ano da edição 2021 ‎ 120 pp Publicado por Giovana Proença Taubateana de 2000. É pesquisadora na área de Teoria Literária na USP. Tem textos sobre livros e literatura publicados em jornais como Rascunho, Estado de Minas e O Estado de S. Paulo Ver todos os posts de Giovana Proença