Entra nesta seara (apertada) a alma do andarilho, devidamente encastelado, se coça ao percorrer os centímetros insuportáveis que separam cada azulejo em suas linhas imaginárias. Matheus Lopes Quirino O ponto do cronista é a rua. Ponto de partida, nunca parada final, andar pela cidade com ou sem obrigações é manancial de saberes e novos olhares. Dessaberes também, e dissabores, quanto ao ponto aqui tocado, consta-se, ele está mais para uma vírgula, não ponto final. Ao flanar pautado no descompromisso, este escriba travestido de pedestre tem uma vida pela frente, desde que atravesse na faixa com devida atenção. Desconfianças à parte, com olhar arguto e ouvidos a postos, o cronista não pode transgredir uma regra: bater perna. Mesmo sob o sopro da peste, que assola o mundo, para comungar no terreiro da crônica, hoje, exige-se máscara e álcool em gel em excesso. Quando não uma só, estampada, às vezes duas. O incômodo em se apinhar numa multidão, mesmo no supermercado, o óculos embaçado, o frasquinho de álcool perdido, estes são alguns temas possíveis para a crônica. Um ofício sem ponto final, com escalas em qualquer portinha que estremeça o senso comum, a alma do cronista está nas ruas, mas nem sempre ela é encantadora. Escrever do alto de um gabinete, quando o sedentarismo e o medo pesam, é um risco assumido que quase sempre descamba para a falha. Uma viagem em torno do ego é sempre o caminho mais fácil, pecado recorrente entre os que adoram gastar quilometragem em torno de si. Em pouquíssimos casos o pecado é permitido. A personagem ajuda. Se há quilometragem para percorrer em uma sala, quarto, banheiro, cozinha, armário de vassouras, que um voo rasante não escape das vistas do sujeito, mesmo em um cubículo. Os sabiás fazem viagens também confinados. Entra nesta seara (apertada) a alma do andarilho, devidamente encastelado, se coça ao percorrer os centímetros insuportáveis que separam cada azulejo em suas linhas imaginárias. Assunto para crônica, as linhas dos azulejos são um inferno para os perfeccionistas, virginianos e formigas. Como fronteiras do ínfimo, que cobrem o concreto frio, o cronista lembra de outros carnavais, como quando as crianças pulavam de azulejo em azulejo, sem poder pisar nas linhas, se não estavam fadadas sucumbir em um ataque fulminante, como se acometidos por um feitiço terrível de uma bruxa má dos contos de fadas. Toc juvenil, talvez, e vai quilometragem, principalmente quando, nas ruas, precisava-se desviar de cada risco no chão. Impossível tarefa, mesmo ao mais metódico dos homens, ainda assim mais cômoda e fácil do que ficar à luz do nada no gabinete, esperando o príncipe e sua trova na janela. A inspiração não vem, ele tampouco. Publicado por Matheus Lopes Quirino Jornalista, foi repórter e editor-assistente do caderno Aliás do jornal O Estado de S. Paulo. Escreve sobre livros, artes visuais e cultura. Ver todos os posts de Matheus Lopes Quirino