(resenha publicada originalmente em A TRIBUNA de Santos, em 29 de maio de 2001)
I
O personagem de Sean Connery no filme (mediano, é preciso dizer) de Gus Van Sant, Encontrando Forrester, é inspirado em J. D. Salinger. Em O Campo dos Sonhos (1989) também havia um escritor, interpretado por James Earl Jones, baseado nele (no romance original, ao que parece, o próprio Salinger é raptado pelo herói que, na adaptação cinematográfca, foi vivido por Kevin Costner, será que alguém ainda lembra?), recluso, intratável no tocante à imprensa e à publicidade e que, no entanto, ganha status de guru (para o assassino de John Lennon, por exemplo). Salinger é, portanto, um mito e só o o caso de Thomas Pynchon (outro arredio misterioso) lhe é comparável. Mais relevante, embora menos motivador de fofocas e factóides, é o fato de que ele poderia aspirar ao título de maior escritor norte-americano das últimas décadas, caso não enfrentasse um páreo duríssimo que ainda não foi satisfatoriamente definido (aliás, alguns concorrentes fortes arrasaram-no ao abordar seu trabalho: Norman Mailer, John Updike, Joan Didion, Mary MacCarthy).
A exibição de Encontrando Forrester coincide com a nova tradução que a Companhia das Letras lança do último livro que Salinger publicou (em 1963): Carpinteiros, levantem bem alto a cumeeira (1955) & Seymour, uma apresentação (1959) O primeiro já fora agraciado no Brasil com o título pueril e boboca de Pra cima com a viaga, moçada porque na época (1984) a editora Brasiliense procurava cortejar , mesmo que tivesse que apelar (e como ela apelou) o público jovem.
II
Paralelamente ao incrível O apanhador no campo de centeio, Salinger escreveu alguns contos extraordinários, reunidos em Nove estórias. É quase impossível dizer qual a melhor delas. Talvez a mais impactante, por ser a primeira, seja “Um dia ideal para os peixes-banana”, na qual acompanhamos um tenso diálogo telefônico entre mãe e filha a respeito do marido desta, Seymour Glass; depois ele aparece em cena, conversando com uma garotinha, até voltar para o quarto de hotel (onde a esposa, após a refrega com a mãe, está adormecida), pegar uma pistola e se matar.
Issso acontece em 1948. O casamento de Seymour e Muriel fora em 42 e esse dia é narrado em Carpinteiros, levantem bem alto a cumeeira pelo irmão do noivo, Buddy, na época com 23 anos e vítima de uma pleurisia (está em tratamento num hospital militar). É a época da guerra e alguns dos sete irmãos Glass estão mobilizados.
Quando chega a Nova York para o casamento, Buddy não conhecia Muriel e sua família. No hotel onde será realizada a cerimônia, descobre que o noivo não aparecerá (estava “feliz em demasia” para se casar oficialmente). Na debandada geral após o fiasco, em limousines, Buddy acaba se reunindo com pessoas desconhecidas, incluindo mrs. Burwick, a dama de honra da noiva, uma das personagens mais fantásticas criadas por Salinger. Começam, então, os geniais diálogos nos quais ele é um mestre supremo.
A deliciosa mrs. Burwick põe-se a fazer uma análise “psicológica” do noivo, sem saber a princípio que Buddy era seu irmão, muito calcada na avaliação da própria mãe de Muriel (aquela mesma do telefonema de “Um dia ideal para os peixe-banana”): ele é possivelmente um homossexual latente e um tipo esquizóide; segundo um psicanalista, é vítima de um “complexo de perfeição”.
É um dia de calor infernal e uma parada imobiliza o trânsito. Desesperados com a temperatura e a tensão entre eles, depois que Buddy é desmascarado como irmão de Seymour, todos (Buddy, a dama de honra, o marido dela, uma simpática parente da noiva, um velhinho surdo-mudo) saem do carro procurando um lugar para se refrescar. Não encontram. Buddy, então, sugere o apartamento que dividia com Seymour antes da guerra. Ali, prosseguem os embates entre o grupo (através de um telefonema, ah esses telefonemas salingerianos!, a dama de honra fica sabendo da fuga de Muriel com o noivo) e Buddy encontra o diário de Seymour,a única interferência direta do esquivo noivo em Carpinteiros, levantem bem alto a cumeeira, com exceção de uma cena no começo do texto.
III
Apesar de todos os esforços de Buddy Glass em fornecer uma aura de poesia ao irmão, Seymour quase sempre soa falso.O texto é sempre muito mais interessante ao mostrar o universo neurótico e mundano da classe média alta de Nova York e mesmo os problemas pessoais do próprio Buddy do que quando envereda para a santificação da figura de Seymour, um personagem que surgiu da necessidade de Salinger de adaptar seues estudos e exercícios expirituais do zen (e similares) ao universo ultra-ocidental e “sofisticado” em que se movem seus personagens típicos. Mas é quando retrata o ultra-ocidental que J.D. Salinger é um escritor excepcional e não quando tenta fazer dos sete irmãos da família Glass (que aparecem em diversos textos) algo assim como uma confraria mística.
Num trecho do diário que Buddy lê escondido dos seus inesperados convidados, no banheiro do apartamento, Seymour conta ter ido ao cinema com Muriel, comovendo-se quando ela se entrega ao espírito do dramalhão hollywoodiano, como numa cena em que aparecem gatinhos filhotes: “Como sou mesmo um chato, mencionei a definição de sentimentalismo de R.H. Blyth: uma pessoa é sentimental quando confere a alguma coisa mais ternura do que Deus a ela confere. Disse-lhe (pomposamente) que Deus sem dúvida ama os gatinhos, mas, muito provavelmente, não com botinhas nas patas e em tecnicolor. Ele deixa esses toques imaginativos para os escritores de roteiros cinematográficos”.
Involuntariamente (?!) ferino e crítico, Seymour quer, pelo contrário, ser indiscriminado, amar tudo, “ir de um pedaço de Terra Sagrada para outro”, e mesmo o mundo falso, sentimental, burguês e materialista, ou seja, “em tecnicolor”, que cerca Muriel, o comove e o faz ser feliz “em demasia”.
Quem matou a charada quanto ao mal estar que isso traz ao leitor (e sua subseqüente impressão, talvez errônea, de que a obra de Salinger enfraquece após obras-primas como O apanhador no campo de centeio & Nove estórias) foi John Updike quando afirmou que “Salinger ama os Glass mais do que Deus os ama. Ele os ama demasiado exclusivamente. A criação deles tornou-se um refúgio para ele. Ele os ama em detrimento da moderação artística.”







