Fotografia da minha autoria«Será possível ganhar quando o jogo está viciado e não conheces o adversário?»Avisos de Conteúdo: Preconceito, Bullying, Violência, Consumo de Drogas, Racismo, Suicídio, Relações Tóxicas, Classismo, Manipulação, Homofobia, Linguagem ExplícitaA Desrotina, uma das novas chancelas do Grupo Infinito Particular, tem feito um trabalho notável no que diz respeito à publicação de obras Young Adult (YA) e New Adult (NA) diversificadas e representativas de realidades, por vezes, esquecidas no meio literário. Assim, com o claro cuidado de escutar vários tipos de leitor, estão a construir um catálogo inovador. Não tenho investido em todos os títulos publicados, no entanto, graças à comunicação que estabelecem com quem os acompanha, tenho sentido vontade de arriscar em exemplares que me passariam despercebidos de outra maneira. Exemplo disso é o livro da Faridah Ábíké-Íyímídé.UM JOGO ALTAMENTE VICIADOÁs de Espadas abre-nos as portas do colégio particular Niveus, reconhecido pelo seu prestígio e, por consequência, pelo seu elitismo, atendendo a que apenas são admitidos os melhores estudantes - preferencialmente, de famílias abastadas. O foco central da narrativa divide-se por dois protagonistas - Chiamaka e Devon -, uma vez que começam a sofrer uma perseguição doentia e anónima, por serem os únicos alunos negros. Embora apresentem personalidades e histórias de vida antagónicas, unirão forças.«A nossa relação é uma transação. Preciso de um círculo de pessoas atrativo. Mas tem de ser um grupo pequeno, porque, já se sabe, quanto mais pequeno, menor a probabilidade de saberem coisas sobre ti»O secundário, apesar de ter implicado uma mudança e um ajuste natural a uma nova realidade, foi uma etapa pacífica na minha fornada, mas a verdade é que eu não tinha um alvo nas costas por causa da minha cor de pele e da minha orientação sexual. Portanto, consciente dessa bolha de privilégio, nunca achei que o sistema agisse com o intuito de minar o meu futuro. E foi por esse motivo que senti tanta revolta a ler este enredo; senti revolta pela discriminação que é ainda tão gritante. Mesmo partindo de um contexto ficcional, é evidente a segregação e a tentativa deliberada para prejudicar terceiros - que se destacam numa supremacia branca.«Sinto pena que esse amor seja para uma versão de mim que não é real»Acompanhar o percurso das personagens tornou-se sufocante, porque se viram presos num cenário de horror. Não obstante, perante um jogo altamente viciado, é pertinente e genial a mensagem da autora, cuja crítica à sociedade nos transporta para várias camadas da história, explorando não só o racismo, mas também estratos socioeconómicos, ao mesmo tempo que desmistifica a noção de vítima e que nos alerta para a necessidade de observarmos para além do óbvio, já que quase todos parecem movimentar-se num universo de máscaras.UMA AURA SOMBRIA E UM FINAL CÉLERECreio que esta narrativa se adensa à medida que avançamos na leitura e que beneficia de uma caracterização fantástica de Chiamaka e de Devon [ainda que não estejam isentos de discrepâncias], mas senti falta de uma resposta mais aprofundada em relação a algumas personagens secundárias que desempenharam um papel muito relevante na ação. Por outro lado, achei que, em todas elas, houve muita verdade e credibilidade, com espaço para crescerem. Além disso, são a voz de dois mundos: os abastados e os que apenas sobrevivem.«Sei que parece descabido, mas o racismo é um espectro, e todos eles, de alguma forma, participam nele»O livro tem algumas fragilidades, pontas soltas e um final demasiado célere, que enfraquece um pouco a vivacidade e seriedade do discurso principal. Não sinto, atenção, que lhe retire mérito, mas acredito que, tendo em conta a sequência narrativa, merecia um desfecho mais cuidado e intencional, para que a luta dos protagonistas não se perdesse num cenário algo fantasioso e bastante desproporcional ao trilho palmilhado.«Tudo em vão. Lutamos todos os dias, todos os malditos dias, e isso irá significar nada»Ás de Espadas é feito de injustiças e de um forte sentimento de impotência. Em simultâneo, é uma lição de [falta de] humanidade. Com uma escrita acessível e reviravoltas surpreendentes, revela-se um thriller psicológico que se inicia lento e que nos envolve em todas as suas teias, de um modo vertiginoso, mostrando-nos que podemos ter uma palavra a dizer contra o sistema, mesmo quando as cartas se afiguram contra nós.|| Disponibilidade ||Nota: O blogue é afiliado da Wook e da Bertrand. Ao adquirirem o[s] artigo[s] através dos links disponibilizados estão a contribuir para o seu crescimento literário - e não só. Muito obrigada pelo apoio ♥