Sinto que cheguei tarde a esta festa.

Fiz, recentemente, um curso (não de escrita criativa nem nada que se pareça), no qual este livro foi recomendado enquanto bom manual de comunicação para muita coisa. Como tal, decidi que era chegada a hora de ler mais Stephen King (só li Green Mile e Carrie, este último duas vezes), desta vez na sua vertente não-ficção. A verdade é que, enquanto pessoa cujas ambições escritoras morreram talvez em 2001, a ideia deste livro, mais que me apelar, frustrava-me.

Foi assim que, apesar das minhas poucas expectativas quanto a este livro (a minha expectativa era mais ligada a esperar frustração), me debrucei sobre On Writing. Confesso que foi, precisamente, frustração que permeou o início da minha leitura, pois Stephen King, na primeira parte do livro (que, não me recordo bem, mas compreende talvez 40% do livro), presenteia-nos com uma auto-biografia sua, na qual relata como, desde pequeno, queria contar histórias, tendo iniciado por as plagiar ou adaptar.

A segunda parte do livro tem alguns conselhos práticos sobre como escrever, e achei o conselho abaixo particularmente triste:

The road to hell is paved with adverbs.

Entendedores entenderão, claro. Do conselho seguinte gostei mais, pois quem nunca saltou as dezenas de páginas de descrição do Ramalhete?

In many cases when a reader puts a story aside because it 'got boring,' the boredom arose because the writer grew enchanted with his powers of description and lost sight of his priority, which is to keep the ball rolling.

A minha opinião final deste livro é mista, claro está. Não desgosto de Stephen King, não obstante não o achar magnífico - acho que ele tem boas ideias e sabe prender o leitor, talvez com menos advérbios de modo que eu, claro está, e o seu sucesso tem um motivo, mas ele nunca vai ganhar um Nobel ou um Pulitzer ou um Booker, acho eu; teria dispensado grande parte da sua auto-biografia, apesar de, aí, ele relatar como o caminho para a escrita (sem entrar sequer no caminho para o sucesso, que ele afirma ser secundário) não ter sido, para ele, nem ser, em geral, linear. 

Stephen King diz que a maioria dos seus livros começou com um "e se...?"; ora, enquanto pessoa cuja imaginação não permite pensar sequer no cenário (daí os sonhos de escrita gorados há mais de vinte anos), a ideia não é muito reconfortante. Ele também gosta de mostrar ao leitor que lê muito, mas a maioria das suas referências são masculinas.

Talvez eu escreva, um dia, um livro sobre ser uma pessoa que não consegue sequer conceber um cenário "e se...?".

4/5

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