Guimarães Rosa – Grande sertão:veredas XVII

[…] Meio arrependido do dito, puxei outra conversa com Diadorim; e ele me contrariou com derresposta, com o pique de muita solércia. Me lembro de tudo. O que me deu raiva. Mas, aos poucos, essa raiva minou num gosto concedido. Deixei em mim. Digo ao senhor: se deixei, sem pejo algum – era por causa da hora – a menos sobra de tempo, sem possibilidades, a espera de guerra. Ao que, alforriado me achei. Deixei meu corpo querer Diadorim; minha alma? Eu tinha recordação do cheiro dele. Mesmo no escuro, assim, eu tinha aquele fino das feições, que não podia divulgar, mas lembrava, referido, na fantasia da ideia. Diadorim – mesmo o bravo guerreiro – ele era para tanto carinho: minha repentina vontade era beijar aquele perfume de pescoço: a lá, aonde se acaba e remansava a dureza do queixo, do rosto…Beleza? – o que é? E o senhor me jure! Beleza, o formato do rosto de um: e que para outro pode ser decreto, é, para destino destinar…E eu tinha de gostar tramandamente assim, de Diadorim, e calar qualquer palavra. Ele fosse uma mulher, e à –alta e desprezadora que sendo, eu me encorajava: no dizer da paixão e no fazer – pegava, diminuía: ela no meio de meus braços! Mas, dois guerreiros, como é, como iam poder se gostar, mesmo em singela conversação – por detrás de tantos brios e armas?

[…] E eu mesmo de todas minhas armas não larguei, quando desci para momento de lavar o corpo no rio. Que tão perto era. E, de lá, todo movimento dos meus eu avistava.

[…] Os gritos, tiros. Que foi, mesmo, que eu primeiro ouvi? Primeiro, dum pulo bruto, eu já estava lá, pegando minhas roupas, armado prestes. E vi o mundo fantasmo. A minha gente – bramando e avistando, e desgarregando: e também se desabalando de lá, xamenxame de abelhas bravas.mas, por que? –  eu desentendi; e tornei a entender, depressa demais: que o inimigo dera de se estourar, todo de repentemente, da banda outra, lugar donde não devia de vir, nem ali possível de ser esperado. Eles eram quantidade.

[…] Mas , no mesmo ar em que eu via aquilo, lavorei pensando: que eu era tonto, e burro, e idiota mil vezes, porque agora estava perdida irremediavelmente minha ocasião, e a guerra descambava, fora do meu poder…E eu acabei de me enroupar, mal mal, e escutava vozes: – Tu não vai lá, tu é doido? Não adianta…Não vai, e deixa que eles mesmos uns e outros resolvam, porque agora eles começariam tudo errado e diferente, sem perfeição nenhuma, e tu não tem mais nada com isso, por causa que eles estragaram a guerra… Assim ouvi, sussurro muito suave, vozinha mentindo de muito amiga minha.

[…] – “Pouco é, para ações.Tu vai lá, Riobaldo…”quem me disse foi Diadorim, em tanto. Surriada zuniu.O tutuco das balas, e as que batiam no chão, as raivosas, tirando terra.

Atirei, seco. Umas três ou quatro vezes. Carreguei em novamente.

[…]” Tu vai,Riobaldo.Acolá no alto, é que é lugar de chefe. Com teu dever, pela pontaria mestra: que lá de riba, de lá tu mais alcança…Constante que, aqui, o negócio está garantido…” – ele disse, mansinho, de me persuadir.

[…] – “Eu vou…”; fui.

[…] Como os braços me testemunhavam um peso…mesmo estranhei, quando fui notado que o tiroteio da rua tinha pousado termo; achei que fazia um certo minuto que o fogo teria sopitado. Cessaram, sim. Mas gritavam, vuvú vavavá de conversa ruim, uns para os outros, de ronda-roda. Haviam de ter desautorizado toda munição? Olhando, desentendi, Atirar eu pudesse? Acho que quis gritar, e esperei para depoismente, mais tarde.Mesmo o que vi: aquele mexinfló. E que quem saía duma porta, para ir se juntar com o bando de todos – armou, segurando frente de si engatilhada uma garrucha de dois canos, pôs a mira – que era o catrumano teofrásio, como se fosse braço-d”armas! E vi, chefiando os dele, o Hermógenes! Chapéu na cabeça era um bandejão redondo… Homem que se desata…

[…] Querer mil gritar, e não pude, desmim de mim mesmo, me tonteava, numas ânsias. E tinha o inferno daquela rua, para encurralar comprido…Tiraram minha voz.

Como vinham de lá e de cá, em contra-ranchos, a tomar armas, as cartucheiras de tiracol. Atirar eu pude? A breca torceu e lesou meus braços, estorvados. Pela espinha abaixo, eu suei em fio vertiginoso. Quem era que me desbraçava e me peava, supilando minhas forças? – “Tua honra…Minha honra de homem valente!…” – e eu, em mim, gemi: alma que perdeu o corpo. O fuzil caiu de minhas mãos, que nem pude segurar com o queixo e com os peitos.Eu vi minhas agarras não valerem! Até que trespassei de horror, precipício branco.

[…] A faca a faca, eles se cortaram até os suspensórios… O diabo na rua, no meio do redemoinho…Assim, ah – mirei e vi – o claro claramente: aí Diadorim cravar e sangrar o  Hermógenes…Ah, cravou – no vão – e ressurtiu o  alto esguicho de sangue: porfiou para bem matar! Soluço que não pude, mar que eu queria um socorro de rezar uma palavra que fosse, bradada ou em muda; e secou:e só orvalhou em mim, por prestígios do arrebatado no momento, foi poder imaginar a minha Nossa Senhora assentada no meio da igreja…Gole de consolo… Como lá em baixo era fiel de morte, sem perdão nenhum. Que engoli vivo. Gemidos de morte, sem perdão nenhum. Que enguli vivo. Gemidos de todo ódio. Os urros…Como, de repente, não vi mais Diadorim! No céu, um pano de nuvens…Diadorim! naquilo, ou então pude, no corte da dor: me mexi, mordi minha mão, de redoer, com ira de tudo… Subi os abismos… De mais longe, agora davam uns tiros, esses tiros vinham profundas profundezas. Trespassei.

[…] Diadorim tinha morrido – mil-vezes-mente – para sempre de mim; e eu sabia, e não queria saber, meus olhos marejaram.

[…]  – “mortos, muitos”?

– “Demais”…

Isto o João Curiol me respondeu, prestativamente, sistema de amigo. Solucei em seco, debaixo de nada. Agora um me dizendo: que, com as ferramentas, uns estavam trabalhando de abrir covas para enterro, revezados. Alaripe fez um cigarro, queria dar para mim; que rejeitei. – “ e o Hermógenes”? – aí foi o que o Alaripe perguntou.

Como estavam indo abrir aquele quarto, trazendo do corredor a mulher do Hermógenes. Ela visse. – A senhora chegue na janela, dona, espia para a rua… – e o que João Concliz falou. Aquela mulher não era malina. – A senhora conheça dona, um homem demõiado, que foi: mas que já começou a feder, retalhado na virtude do ferro…Aquela Mulher ia sofrer? Mas ela disse que não, sacudindo só de leve a cabeça, com respeito de seriedade. – Eu tinha ódio dele… – ela disse;me estremecendo. Ou eu ainda não estava bem de mim, da dor que me nublou, tive de sentar no banco da parede. Como no perdido mal ouvi partes do vozeio de todos, eu em malmolência. – Tomaram as roupas da mulher nua? Era a Mulher, que falava.Ah, e a Mulher rogava: – Que trouxessem o corpo daquele rapaz moço, vistoso, o dos olhos muito verdes…Eu desguisei. Eu deixei minhas lágrimas virem, e ordenando: – “Traz Diadorim!” – conforme era.  –“Gente, vamos trazer.Esse é o Reinaldo…” –  o que o Alaripe disse. E eu parava ali, permeio o menino Guirigó e o cego Borromeu. – Ai Jesus! – foi o que ouvi das vozes deles.

Aquela mulher não era má, de todo. Pelas lágrimas fortes que esquentavam meu rosto e salgavam minha boca, mas que já frias rolavam. Diadorim, Diadorim, oh, ah, meus buritizais levados de verdes…Burití, do ouro da flor…E subriram as escadas com ele, em cima de mesa foi posto. Diadorim, Diadori – será que amereci só por metade? Com meus molhados olhos não olhei bem – como que garças voavam…E que fossem campear velas ou tocha de cera, e acender altas fogueiras de boa lenha, em volta do escuro do arraial…

Sufoquei, numa estrangulação de dó. Constante o que a Mulher disse: carecia de se lavar e vestir  corpo. Piedade, como que ela mesma, embebendo toalha, limpou as faces de Diadorim, casca de tão grosso sangue, repisado.E a beleza dele permanecia, só permanecia, mais impossivelmente. Mesmo como ia dizendo assim, nesse pó de palidez, feito a coisa e máscara, sem gota nenhuma. Os olhos dele ficados para a gentever. A cara economizada, a boca secada. Os cabelos com marca de duráveis…Não escrevo, não falo! – para assim não ser: não foi, não é, não fica sendo! Diadorim…

Eu ia dizendo que a Mulher ia lavar o corpo dele. Ela rezava rezas da Bahia.mandou todo o mundo sair. Eu fiquei. E a Mulher abanou brandamente a cabeça, consoante deu um suspiro simples. Ela me mal-entendia. Não me mostrou de propósito o corpo. E disse…

Diadorim – nu de tudo. E ela disse:

– “A Deus dada. Pobrezinha…”

E disse. Eu conheci!Como em todo o tempo antes eu contei ao senhor – e mercê peço: – mas para o senhor divulgar comigo, a par, justo e travo de tanto segredo, sabendo somente no átimo em que eu também só soube… Que Diadorim era o corpo de uma mulher, moça perfeita…Estarreci. A dor não pode mais do que a surpresa. A coice d’arma, de coronha…

Ela era.Tal que assim se desencantava, num encanto tão terrível; e levantei mão para me benzer – mas com ela tapei foi um soluçar, e enxuguei as lágrimas maiores. Uivei. Diadorim! Diadorim era uma mulher. Diadorim era mulher como o sol não acende a água do rio Urucúia, como eu solucei meu desespero.

O senhor não repare. Demore, que eu conto. A vida da gente nunca tem termo real.

Eu estendi as mãos para tocar naquele corpo, e estremeci, retirando as mãos para trás, incendiável: abaixei meus olhos. E a Mulher estendeu a toalha, recobrindo as partes. Mas aqueles olhos eu beijei, e as faces, a boca. Adivinhava os cabelos. Cabelos que cortou com tesoura de prata…cabelos que, no só ser, haviam de dar para baixo da cintura…E eu não sabia por que nome chamar; eu exclamei me doendo;

– “Meu amor!…”

[…] –“Enterrem separado dos outros, num aliso de vereda, adonde ninguém ache, nunca se saiba…” Tal que disse doidava. Recaí no marcar de sofrer. Em real me vi, que com a Mulher junto abraçado, nós dois chorávamos extenso. E todos meus jagunços decididos choravam. Daí, fomos, e em sepultura deixamos, no cemitério Paredão enterrada, em campo do sertão.

Ela tinha amor em mim.

E aquela era a hora do mais tarde.O céu vem abaixando. Narrei ao senhor. No que narrei, o senhor talvez até ache mais do que eu, a minha verdade. Fim que foi.

Aqui a estória se acabou.

Aqui, a estória acabada.

Aqui a estória acaba.

João Guimarães Rosa