Fotografia da minha autoria

«Ver para além do óbvio»

As histórias podem ser contadas de várias maneiras. Por isso, acredito que, quanto maior for o número de possibilidades, mais o nosso imaginário será estimulado, até porque seremos incentivados a explorar distintos níveis de interpretação. Portanto, sempre que abro um livro, permaneço atenta a cada detalhe. E à mensagem que ultrapassa o texto.

O primeiro contacto que temos com as obras literárias, quando ainda não sabemos ler, é através das ilustrações. E entristece-me um pouco a desvalorização feita sobre esse investimento, recorrendo a comentários que colocam em causa aquela leitura. No entanto, a criança está mesmo a fazê-la. Está a ler as imagens e a atribui-lhes um sentido. E, mais, a partir daí são capazes de criar outros enredos, outras problemáticas e outras personagens. Porque não têm palavras a orientar a construção, proporcionando-lhes uma liberdade maior. Da mesma forma como, a partir de uma certa altura da nossa vida, preferimos não ver a adaptação cinematográfica, porque elaboramos uma imagem da narrativa, enquanto pequenos leitores ficamos fascinados pelas inúmeras portas que podemos abrir naquele desenho, porque não há só uma interpretação possível.

As ilustrações são, então, ferramentas valiosas, sobretudo, quando as relacionamos com a literatura. Embora não seja um requisito obrigatório, fazem toda a diferença. Assim, quais são os seus poderes?

O UNIVERSO IMAGINATIVO

A criança vê as imagens antes de ver as letras. Além disso, como o seu pensamento abstrato ainda está em formação, é importante garantir que lhe são disponibilizados mecanismos que as permitam explorar a leitura por processos semióticos. Deste modo, serão capazes de passar, gradualmente, da leitura pictórica para a verbal, aprendendo a articular ambas. Tendo em conta que as imagens conversam com quem as observam - criança, adolescente ou adulto, faço a ressalva -, são um excelente ponto de partida para o mundo encantado da nossa imaginação.

OUTRO PONTO DE VISTA

Há exceções, como seria de esperar, mas é natural que o texto e as ilustrações sejam criados por pessoas diferentes. Logo, a mancha gráfica, que dependerá da visão criativa do artista, poderá revelar outro ponto de vista sobre o enredo, uma vez que representará elementos específicos, apelando ao nosso sentido crítico e artístico. Visto que o ilustrador terá uma intimidade maior com o texto, acabará por fazer sobressair a sua interpretação dos factos/das personagens.

A ORIENTAÇÃO

Transportando-nos para micro contos, pode complementar o que está escrito ou trazer novidades. Posto isto, o ilustrador aumentará os significados que a mensagem reserva. É fundamental que as duas partes façam sentido e que se estabeleça uma ponte entre o texto e a imagem. Porém, é sempre vantajoso quando se incluem pistas subtis ou novos elementos, encaminhando-nos para um infinito mundo de possibilidades.

CAPTAR A MENSAGEM

As palavras têm um peso incalculável e podem colar-se à nossa pele. Ainda assim, a imagem tem a capacidade de nos guiar para esse resultado de um modo mais imediato, até porque retemos a componente visual com outra rapidez, mantendo-a na nossa memória por mais tempo.

A CARGA AFETIVA E EMOCIONAL

As ilustrações despertam sensações. Porque há movimento, há silhuetas, há contextos desenhados. Nós lemos e imaginamos determinado cenário e, depois, vêmo-lo exposto em técnicas, perspetivas e cores próprias. E isso não só atribui sentido à nossa curiosidade, como também desperta esta componente mais sentimental, até porque temos esse complemento.

As ilustrações têm sempre um objetivo, alimentando novos sentidos. Apesar de ler mais livros em que elas não estão presentes, reconheço-lhes potencial, porque guardam mundos infinitos dentro dos seus traços. E porque podem potenciar «as aspirações do leitor». Sem desvalorização, permitamo-nos abraçar esta arte, pois ajuda a reproduzir aquilo que nem sempre resulta por palavras. Em simultâneo, estabelece conexões. Estrutura o pensamento. Aproxima quem lê. E concede espaço para que cada um torne a história mais à sua imagem.