NATUREZA MORTA COM LOUVA-A-DEUS

Foi o último hóspede a sentar-se

no topo da mesa, já depois do martírio.

As asas magníficas haviam-lhe sido quebradas

por algum vento. Perdera o rumo

sobre a película cintilante de água

no riacho parado. Tal como poisou

junto de nós, com o belo corpo magro

arquejante, lembrava, ainda segundo o seu nome,

um santo mártir. Enquanto meditávamos,

a morte sobreveio, e a pequena criatura,

que viera partilhar a nossa mesa,

depois de ter sido banida das águas

foi banida da terra. Alguém pegou

no volúvel alado corpo morto

abandonado sem nexo na brancura da toalha

- que maculava -

e o atirou para qualquer arbusto raro

que o poeta ainda pôde fotografar.

FIAMA HASSE PAIS BRANDÃO

ANIMAL ANIMAL

um bestiário poético

Organização Jorge Sousa Braga

Assírio & Alvin

Fevereiro 2005

 

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