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| Fotografia da minha autoria |
«É preciso ver o que não foi visto,
ver outra vez o que se viu já»
A primeira semana de fevereiro terminou serena, mas com níveis de entusiasmo elevados. Porque o aniversário do meu pai abriu portas a dois dias longe da rotina. Sou muito apaixonada pelas minhas cidades - de origem e de coração -, mas adoro partir à descoberta. E, felizmente, o nosso país transborda de destinos ótimos e imperdíveis, que nos sabem acolher como se fossemos parte da sua identidade.
O despertador tocou cedo, uma vez que não dispensamos viagens aproveitadas ao máximo. Com as malas na Pão de Forma imaginária, rumamos até Viseu, berço de Viriato, de recantos ajardinados e com território vinhateiro no seu ADN. Apesar de nos ter recebido com chuva, não nos impediu de conhecermos pedaços da sua história, sendo impossível não nos rendermos a todo o seu charme inerente, com ruelas pintadas de detalhes artísticos, que as tornam únicas e memoráveis. Porque há muito por desvendar. Há muitos traços para absorver. E inúmeras propostas de roteiros, que se adequam a todos os estilos de viajantes. Atendendo a que sou adepta de caminhadas, até porque não existe melhor maneira de nos ligarmos aos locais que exploramos, deixei-me levar pelo caminho que foi surgindo no nosso enlaço.
A Praça da República foi a primeira paragem, distinguindo-se pela área ampla, «pelas valências administrativas e económicas» e pela «alegoria ao mundo rural», representada num belíssimo painel de azulejos azuis. Numa das laterais, o nosso foco centra-se, ainda, na Igreja da Ordem Terceira de S. Francisco. Se subirmos a sua deslumbrante escadaria, temos uma vista privilegiada sobre o Rossio. Seguindo pela Rua Direita, que unia as duas portas da cidade, ficamos a conhecer a sua forte representação comercial, «as casas sobradas, as casa senhorias e as janelas manuelinas». Em simultâneo, acolhemos o espírito deste lugar tão puro e especial. Pelo meio, tivemos a possibilidade de comprar um dedal, de vislumbrar o Solar Visconde de Treixedo, o Teatro Municipal, a Porta dos Cavaleiros, o Chafariz de S. Francisco, que serviu de cenário, numa violenta cena de pancadaria, na obra Amor de Perdição, de Camilo Castelo Branco, e a Casa do Miradouro.
O ponto turístico final foi o Adro da Sé, colocando-nos em contacto com a imponente Igreja da Misericórdia, que «alberga um núcleo museológico», com o Museu Nacional Grão Vasco, onde podemos ver «algumas das obras-primas da pintura renascentista portuguesa», muitas delas classificadas como Tesouro Nacional, e, naturalmente, com a Sé Catedral, que preserva «o primeiro claustro renascentista de Portugal e uma magnífica abóbada de nós». Como chegamos enquanto estava a decorrer a missa, não entrei para observar o interior, mas fiquei com uma aprazível impressão da parte circundante. O centro histórico é, igualmente, marcado por um Pelourinho e pelo Passeio dos Cónegos, com inspiração italiana. Embora estivesse a adorar a experiência, porque Viseu é mesmo um lugar a ter em conta, fomos obrigados a voltar ao hotel, já que a meteorologia piorou, tornando-se impossível continuar o passeio. Mas há fragmentos que, certamente, nunca mais esquecerei.
O domingo acordou solarengo, ideal para regressarmos ao Adro da Sé e, posteriormente, abraçarmos um novo reencontro: uma Serra da Estrela sem neve, mas sempre encantadora, deixando-me sem palavras em todas as vezes que perco a minha vista pela Lagoa Comprida, construída a partir de uma lagoa natural, assumindo a função de reservatório principal. Com uma paisagem arrebatadora, que quase nos retira o fôlego, há uma paz que se instala no nosso peito, mesmo sendo um local tão visitado. O contacto com a natureza permite-nos relaxar. E sentirmo-nos plenos. De olhos postos em todo o seu esplendor, respirei fundo. Despedi-me em silêncio. E prometi não demorar tanto tempo a cruzar os nossos passos.



































