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 resenha publicada originalmente em A TRIBUNA de Santos, em 15 de março de 2011) 

  Quantos estudantes de Letras, nos últimos 20 anos, não devem ter se socorrido de apuros conceituais com O tempo na narrativa (1988), lapidar manual a respeito de um tema intricado, e que, denso e preciso, resiste até mesmo às exigências da pós-graduação?  O autor, Benedito Nunes, acabou de falecer, sem muito alarde. Porém, foi um dos críticos e pensadores brasileiros mais importantes das últimas décadas, aliando a argúcia crítica, o pendor filosófico, o discernimento didático e a habilidade como escritor para trazer ao leitor universos como o de Heidegger, por exemplo; sem prejuízo da complexidade, ele os tornava, na medida do possível, cristalinos mesmo para o leigo. Nesse sentido, seu Passagem para o poético: filosofia e poesia em Heidegger (1986) é um clássico.

    Em boa hora, a editora 34 relançou o livro que ratificou Nunes, aos 40 anos, como um dos pesos-pesados da produção crítica nacional: O dorso do tigre (1969), que eu sempre li picado, ao sabor da demanda por aprofundamento num determinado autor, e agora, lendo-o de ponta a ponta, para honrar a memória do autor, constato se tratar mesmo de uma obra-prima da ensaística.

      Na seção “filosófica”, os sete textos giram em torno da “miséria da filosofia”, a crise do pensar contemporâneo, que não oferece consolo (estoicismo), superação dialética (Hegel, Marx) ou utopias (Morus, Campanella) para a prática filosófica. Resenhadas acuradamente, as idéias de pensadores inovadores como Henri Lefebvre (Metafilosofia) ou Michel Foucault (As palavras e as coisas), no calor da hora, nos tumultuados anos 60, quando tudo foi posto em questão, nos mostram as exigências de uma reflexão (a de Lefebvre), a qual, “crítica da vida cotidiana”, procura dar conta “da proporção em que os novos condicionamentos e automatismos que nos dominam, em que os contrastes e rupturas que as técnicas e os meios de comunicação e informação determinaram, podem sujeitar-se a um projeto definido de humanização”; ou de outra (a de Foucault) que vê a emergência do “sujeito” (e a constituição das Ciências Humanas) não como uma necessidade histórica, decorrente do humanismo, mas como um episódio de uma reestruturação do real pós-Era Clássica, e, por conseguinte uma invenção epistemológica.

   Na parte de “estudos literários”, encontramos ensaios ainda insuperados sobre Clarice Lispector, Guimarães Rosa, Fernando Pessoa e João Cabral de Melo Neto. Em todos eles, Nunes descortina para o leitor, e é uma coisa tão pouco praticada hoje em dia que dá uma sensação de vertigem, a concepção de mundo de cada um deles. Dessa forma, sem negligenciar o que há de especificamente literário, conhecemos a fundo o elo entre a produção clariceana inicial e as filosofias existenciais e fenomenológicas (de Kierkegaard a Sartre), que tratam da angústia, do desconforto de ser-no-mundo.  Nunes, aliás, estudou Clarice antes de ela virar autora da moda, quando era “hermética” para o grande público. Pouca coisa que se escreveu posteriormente tem o alcance e a abrangência de O mundo imaginário de Clarice Lispector (ampliado e transformado num livro indispensável, agora conhecido como O drama da linguagem, a partir da sua edição de 1989).

    Se o ensaio sobre Clarice foi pioneiro, aqueles que tratam de Guimarães Rosa e Fernando Pessoa, que já tinham sido exaustivamente estudados, mesmo assim trazem perspectivas inusitadas e renovadoras. Nunes mostra como o amor (nas acepções platônica e alquímica) é essencial à visão de travessia que percorre a obra de Rosa, e analisa o desdobramento de Fernando Pessoa em heterônimos e a tendência místico-ocultista do poeta de uma forma sensacional. Dá vontade de sair correndo para reler a obra de todos eles. Que se pode pedir mais a um crítico?