Dez razões para aspirar a ser gato
Comprei este livro maioritariamente pelo título.
Não é mentira - podem confirmar aqui. Maioritariamente, porque foi também a opinião da senhora por trás da banca do Espaço Llansol, dizendo ser um livro maravilhoso, que me convenceu a comprá-lo mesmo.
Valério Romão é um nome que, não me sendo totalmente desconhecido, não me era particularmente familiar. Parti, assim, sem qualquer tipo de preconceito ou ideia pré-formada para a leitura de Dez razões para aspirar a ser gato.
O conteúdo do livro segue, de certa maneira, o prometido no título: são dez contos que nos relatam situações que levam a que dez pessoas diferentes a aspirar ser gatos, também elas por motivos díspares. Sou absolutamente contra conteúdo de blogs que consista em sinopses, mas fica aqui a retirada do site da Mariposa Azual, porque é sublime e sucinta:
"Neste livro é melhor ser gato que ser pobre (Razão 1); melhor do que ser gato-sapato num emprego abaixo de cão (Razão 2); antes gato que rato de biblioteca num curso para o desemprego (Razão 3); porque os gatos podem ter todos os defeitos, mas não são ga-a-a-a-gos (Razão 4); antes gato do que viver preso aos fios de uma existência entrevada (Razão 5); porque os gatos não pedem nem fazem juras de amor eterno (Razão 6); porque os gatos não têm problemas de visão (Razão 7); só quando se é ainda muito criança é que não se percebe a vantagem de ser gato – “eu não quero ser gato, não quero, não quero! “(Razão 8); porque ninguém leva a mal que um gato tenha uma vida assim-assim (Razão 9) “porque os gatos não são felizes, são melhores”, como se diz na Razão 10."
Mas ser gato não é exactamente um desejo central em cada um dos contos - o que acontece é que a personagem de cada um deles chega a um ponto no qual preferiria ser um gato do que ser quem é. É o estado em que as personagens se encontram, ou ao qual chegam, que faz com que o desejo se manifeste, como escape que é, no fundo, inviável.
Destacaram-se, para mim, alguns contos: o 6 (A razão a três), o 7 (A razão oftalmológica), o 8 (A razão infantil). Se o 8 se destaca por, como podemos retirar da sinopse acima, se centrar numa criança que, confrontada com a encenação de Alice no País das Maravilhas, na escola, não quer ser gato - até perceber que se calhar também ele tem motivos para o querer -, e o 7 é identificável para quem tem mais de 9 dioptrias em cada olho, o 6 é simplesmente triste e sublime.
[(...)isto não é amor não é carinho não sei o que é
só a gata sabe o que não lhe digo, a gata de batina preta em poses de confessora da paróquia, que jurou por Hipócrates Jesus e os Santos que nunca diria nada a ninguém.]
E eu entro em casa todos os dias
[e eu entro em casa todos os dias]
e digo baixinho à gata
[e digo baixinho à gata]
eu amo-te
[eu amo-te]
para não ter que lho repetir a ela
[para não ter que lho repetir a ele].
5/5 recomendo a todos os que não percebem por que é que ser gato é ser melhor.
Podem comprar esta edição directamente à editora, aqui.



