Gustavo Nascimento

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Carla Madeira, escritora brasileira mais lida em território nacional no último ano, vem ganhando cada vez mais notoriedade em feiras literárias e na internet. A adaptação de Tudo é rio para o cinema, e Véspera para o formato de série de streaming, além da ampla circulação de sua presença em jornais e revistas, demonstra que a produção da autora encontrou acolhimento na cultura brasileira de massa. Em contrapartida, ainda há pouquíssima crítica literária especializada produzida sobre a autora e os trabalhos encontrados geralmente fazem leituras feministas ou psicanalíticas de sua produção, quase sempre de profissionais que não pertencem ao campo literário.
Em A natureza da mordida, livro que narra a história dos encontros de duas amigas (Biá e Olivia) e que alterna entre contar o encontro de ambas e o registro de anotações feitos por Biá, aparecem trechos de referências canônicas, por vezes sem as aspas. Os trechos são incorporados às falas de Biá. Por exemplo, o poema “Neologismo” de Manuel Bandeira que é referido durante uma lembrança de Bia: “Você é o pai da minha filha, Teodoro. ‘Te adoro’ era como eu o chamava todas as manhãs ao acordá-lo”. Assim, o verbo intransitivo ‘teadorar’ do poema de Bandeira vira o apelido carinhoso do marido da professora.
Essas citações aparecem ao final do livro reforçadas na lista de referências utilizadas, sob o título de “Citações de Biá”. O leitor encontra aí a identificação exata das citações e o registro dos versos originais, o que Madeira chama de “bifes”.
Antoine Compagnon, estudando a prática da citação afirma que é possível que esse tipo de apropriação possa também indicar “um lugar de acomodação previamente situado no texto”. Destaco exatamente esse comentário do teórico francês porque a meu ver a seleção e escolha das citações feitas por Madeira parecem se escorar nas referências como um material de autoridade, que dá um tom de erudição à personagem Biá e, por tabela, à narrativa.
Ao final, Madeira agradece “[a]os escritores que me ajudaram a contar essa história”. Como meu interesse era observar o funcionamento dessa prática de apropriação na obra da autora, me chama a atenção que além de constituir um elemento verossímil de caracterização da personagem Biá, todas as citações expõem um cânone pessoal da escritora muito próximo aos autores pertencentes ao cânone brasileiro (mas não apenas). Me pergunto pelo efeito de leitura desse recurso citacional que se apoia em trechos de obras e autores já bastante reconhecidos, inclusive por um público acostumado às trends literárias virtuais. O que pode significar no caso de Madeira com uma trajetória profissional como escritora meteórica e popular a evocação aos clássicos em sua versão mais popular?