Gustavo Nascimento

Créditos da imagem: Rose, 1978-79, Lucian Freud

No meu último post aqui no blog, em que comentei a obra do autor americano Jonathan Safran Foer, Tree of Codes, escrevi um pouco sobre como a escrita não-criativa pode encontrar resistência da crítica não apenas porque a ideia de autoria parece diminuída nestas produções, mas também porque a prática da apropriação ainda parece um tabu. Essas questões me interessam especificamente porque estão na base da proposta de investigação de iniciação científica que desenvolvo atualmente.  

Em A natureza da mordida, Carla Madeira constrói uma trama cuja personagem principal é uma professora de literatura e psicanalista aposentada que sempre encontra sua amiga jornalista em um café. Em meio aos encontros e acontecimentos da vida pessoal das personagens, o quadro clínico de demência de Biá é evidenciado justamente pela confusão entre o real e a imaginação. Assim, a professora vai entremeando a suas falas referências literárias, trechos de obras canônicas.

As falas de Biá, então, são uma espécie de recorte e cole elaborado por Madeira para construir a voz de sua personagem, como acontece, por exemplo, quando ao dirigir-se a sua amiga em um momento conflituoso, Biá diz:  “acredite como seus olhos verdes: só nos resta tocar um tango argentino.” A referência é imediatamente identificada pelo leitor que recupera a ironia reaproveitada do poema “Pneumotórax” do modernista Manuel Bandeira. As apropriações se espalham pelo texto e podem ser também confirmadas na lista que aparece ao final do livro intitulada “Citações de Biá”. A verdade é que outras obras literárias e artísticas compõem o romance de Madeira e são fundamentais para a construção de personagens e para o desenvolvimento dos acontecimentos. Como acontece, por exemplo, com a apropriação dos versos da poeta polonesa, Wislawa Szymborska:

“Mulher, como você se chama? – Não sei.

Quando você nasceu, de onde você vem? – Não sei.

Para que cavou uma toca na terra? – Não sei.

Desde quando está aqui escondida? – Não sei.

Por que mordeu o meu dedo anular? – Não sei.

Não sabe que não vamos te fazer nenhum mal? – Não sei.

De que lado você está? – Não sei.

É a guerra, você tem que escolher. –

Não sei. Tua aldeia ainda existe? – Não sei.

Esses são teus filhos? – São.”

Evocando o poema  “Vietnã” , Madeira vai definindo Biá pela perda de sua memória, o esquecimento de seu nome e de fatos importantes de sua vida, em contraponto com a memória mantida sobre a maternidade. As referências também evocam o universo das artes plásticas. Assim, o quadro “Rose”, pintado por Lucian Freud, e que tem como modelo a própria filha do pintor posando nua para ele, é fundamental como chave interpretativa para um dos grandes conflitos da narrativa: o marido de Biá e pai de Rita as abandona, pois teme o desejo que sente pela filha.

A remissão à conturbada relação entre Lucian Freud e sua filha Rose Boyt é reafirmada pela autora ao final do romance quando, sobre o pai, Rita diz “Eu vestia uma camisa dele, imensa, e estava sentada no chão agarrada em suas pernas… uma imagem que ironicamente sempre me lembra um quadro… de Lucian Freud, o pintor”.

Os exemplos acima demonstram que Madeira busca uma espécie de colaboração com outras obras para construir seu próprio romance, oferecendo ao leitor a possibilidade de explorar o modo como essas apropriações estabelecem um diálogo com a obra. Os atos de recortar, colar e recontextualizar os trechos apropriados, próprios da escrita não-criativa, abrem mais um meio de investigação sobre o que é escrever na contemporaneidade.