(resenha publicada originalmente em A TRIBUNA de Santos, em 08 de março de 1994)
Não fosse Império do Sol, seu único genuíno grande filme (para mim, pelo menos), Steven Spielberg seria o cineasta menos indicado para realizar A LISTA DE SCHINDLER, pois, numa carreira discutível, algumas fotografias (e toda a parte técnica, é evidente) indiscutivelmente belas e trilhas sonoras extraordinárias (de John Williams) embalaram ora bobagens divertidas (Caçadores da arca perdida, Jurassic Park), ora bobagens de qualidade duvidosa (Contatos imediatos do terceiro grau, Indiana Jones e o Templo da Perdição),para não falar nos tempos mortos de Tubarão (e na complementar e paradoxal histeria de evitar tempos mortos em coisas do tipo Indiana Jones e a última cruzada) ou nas apelações de E.T. e A cor púrpura.
Como se sabe, o livro do australiano Thomas Keneally (Schindlers´s Ark, 1982, em tradução de Tati Moraes para a Record, que o publicara antes como Um herói do Holocausto) conta a história real de Oskar Schindler, transformada pela Segunda Guerra em magnata da indústria e que resolve proteger os judeus que trabalham como escravos na Emália, sua fábrica em Cracóvia (Polônia). Usa muito dinheiro, comida, bebida e produtos do mercado negro (e da própria Emália) para subornar oficiais da SS. Nessas transações, é de grande valia seu temperamento de playboy, bon vivant e mulherengo.
Schindler liga-se ao repelente Anton Goeth, comandante do campo Plaszóvia, de onde são fornecidos os judeus para Emália. Goeth é um sádico psicopata, capaz de atirar em qualquer um sem motivo. Com a derrocada do esforço de guerra alemão, a desativação de Plaszóvia é inevitável e Schindler faz uma lista dos “seus” judeus, procurando transferi-los e salvaguardá-los da “solução final”, isto é, do extermínio.
Os detalhes do livro vão nos acachapando de uma forma que me lembrou muitas vezes a leitura de Brasil: Nunca Mais. É desesperador saber que foi possível ter acontecido. Um crime psicótico individual choca, mas o que pensar da maldade organizada pelo Estado? Se há um mérito indiscutível em obras como essa é fazer evaporar qualquer veleidade do leitor em concordar, por mais que a democracia seja difícil, com os obtusos que sentem nostalgia da “ordem” proporcionada por uma ditadura.
Porém, Keneally não é um grande escritor e A lista de Schindler não tem a estatura de A escolha de Sofia, de William Styron (lembro dele aqui porque deu origem à última grande produção hollywoodiana abordando o assunto antes do filme de Spielberg), que aproveitava as experiências de uma sobrevivente não-judia de Auschwitz para uma vasta reflexão sobre a luta de Eros e Tânatos no espírito humano), e nem de Império do Sol, de J.G. Ballard, fonte da obra-prima spielberguiana. De fato, o leitor se pergunta se Keneally é sequer um bom escritor: é incapaz, por exemplo, de dar vitalidade à figura-chave, totalmente apagada na economia do romance pelo hiperbólico Goeth e pelas vinhetas (não passam disso) sobre os judeus que participam da esfera de proteção do playboy-ganster-salvador. O autor tende, também, a fazer reflexões patéticas e mixurucas quando certas situações falam por si, sem precisar de ênfase ou muletas.
Se o resultado literário é mediano, o que esperar da adaptação se o roteirista Steve Zaillian já transformou um relato real e deveras impressionante do dr. Oliver Sacks (Despertando, um livro importantíssimo) numa bomba lacrimogênea chamada Tempo de despertar? Vendo as imagens divulgadas do filme de Spielberg, constatamos que ele tem uma fotografia indiscutivelmente bela (e toda a parte técnica, é evidente) e uma extraordinária trilha musical de John Williams. Oxalá não seja só isso desta vez.








