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| Fotografia da minha autoria |
Tema: Um livro de um autor que nunca leste
A literatura é um mundo inesgotável. Familiar. E de encantos redobrados. Mas não deixa de ser curiosa a nossa predisposição para regressarmos aos mesmos nomes. E eu tenho plena consciência de que não me desvio desta rota por muito tempo. Apesar de procurar diversificar, cedo à saudade - e à tentação - de me fazer acompanhar daqueles que me aquecem o coração, como é o caso de Miguel Esteves Cardoso, Torey Hayden, Miguel Sousa Tavares e Agatha Christie. E embarco neste colo que conheço quase como a palma da minha mão.
«Quantas vezes não damos por nós agarrados aos autores de sempre?». Esta é a premissa do tema de abril de Uma Dúzia de Livros, no qual somos desafiados a «contrariar a tendência e a experimentar um autor pela primeira vez». O meu entusiasmo foi imediato. Não só pela dinâmica, mas também por nos levar a transpor a nossa linha de conforto e segurança. E eu acredito que a descoberta tem uma sensação muito semelhante à de desembrulhar um presente: imprevisível. Emocional. E carregada de expectativas. Para lá do papel, as possibilidades podem ser infinitas. Assim como nas histórias. Por isso, optei por aventurar-me na obra de alguém que admiro, mas cujo trabalho literário não constava na minha bagagem: Diogo Faro.
Sou uma fã confessa do seu humor, do sarcasmo presente nas suas observações e da sua consciência cívica. Portanto, pareceu-me lógico dedicar-me, finalmente, a um livro da sua autoria. Além disso, adoro o formato em crónica, porque, embora não leia mais do que um exemplar em simultâneo, permite uma maior liberdade na leitura, nas reflexões e na sucessão de temáticas - e, por vezes, de problemáticas. Em Somos Todos Idiotas viajamos por 40 textos «que tratam a sociedade ao pontapé, sem direito a caixa de comentários». Brilhante!
A sua frontalidade é, em certa medida, revolucionária. Desconcerta. Provoca reações. E, por essa razão, é tão necessária. A voz ativa e mordaz, ridicularizando a nossa incoerência enquanto comunidade, coloca no centro da discussão temas fraturantes. Atitudes a serem repensadas. E a hipocrisia dos nossos juízos de valor, quando, não tão raras vezes assim, fazemos o que criticamos. Nesta «obra transversal», há lugar para todas as espécies - de assuntos e de pessoas. E há, também, uma excelente dose de humor, que nos arranca gargalhadas nas situações mais inusitadas. Porque, para o bem ou para o mal, conseguimos associá-las à realidade que nos envolve.
Pedro Durão, autor do prefácio, escreveu que Diogo Faro «ainda não é, mas vai ser, entretanto, a plenitude de um comunicador». Porque é «sarcástico, inteligente, culto [...] e, acima de tudo, não papa grupos». E conclui com a ressalva que me parece mais acertada: «o Faro é apenas o Faro. Íntegro e com a sua visão». O que se comprova na «evolução de cada página». Podemos não concordar com todas as considerações que apresenta, mas é percetível o quanto se mantém fiel aos valores que defende e àquilo em que acredita. Numa altura em que tanto se disserta acerta dos limites do humor - e mesmo sabendo que este livro foi publicado há três anos -, fascina-me quem tem a audácia de permanecer firme na sua jornada. Pois é esta verdade que faz prevalecer o carisma. E a identidade.
Somos Todos Idiotas é uma obra inteligente, com liberdade linguística e de pensamento. Além do mais, não nos confronta apenas com uma acérrima crítica social, também reserva espaço para temas mais sentimentais, que nos desarmam pela sua energia. Neste sentido, Livros Sem-Abrigo, Os coitadinhos que cá ficam, A doença das mãozinhas, Almoçar na casa dos avós. Ou não e Muito obrigada, avós estão no meu topo de preferências. Mas há, pelo menos, 40 motivos excecionais para nos perdermos de admiração. E não posso concluir sem referenciar as ilustrações fenomenais de Hugo Makarov, que abrilhantaram toda a história paralela, entre as palavras e as imagens.
A leitura é célere, quer pelo tamanho dos textos, quer pela fluidez do discurso, mas não perde sentido, porque o lado objetivo do autor não fomenta pontas suspensas e desconexas. Muito pelo contrário. Neste retrato contundente, é identificável a eloquência de Diogo Faro. Fossem[os] todos tão idiotas como ele!
Deixo-vos, agora, com algumas citações:
«Há uma advogada que lhe dá comida e livros. Há uma advogada de quem passei a gostar sem sequer saber quem é. Uma vez, ela perguntou-lhe o que andava ele a ler e ele respondeu "nada". Então, ela levou-o a uma livraria e ofereceu-lhe o livro que ele escolheu» [p:26];
«Há uma coisa divertidíssima na vida que se chama: prioridades. Preferes gastar o dinheiro em roupa em vez de ir ver a Grande Muralha da China? Fazes bem. Não vá um dia a muralha vir até ti e tu não teres nada adequado que vestir» [p:115];
«O cancro, já se sabe. É uma coisa horrível e não se pode fazer piadas com ele, porque vários estudos realizados pela Universidade Sénior de Agualva-Cacém - onde só são leccionados os cursos de Auto-Antropologia Paleolítica e Como Desenhar Pilas no Paint - indicam que quando alguém o faz, as células cancerosas percebem, riem-se muito e com gosto, e ao rirem-se acabam por se multiplicar ainda mais depressa e depois é um «ver se te avias (ai, que bela expressão) na quimioterapia» [p:123].
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