Fotografia da minha autoria

«Uma obra polémica, que gerou contestação por parte da igreja católica»

Avisos de Conteúdo: Machismo, relações abusivas/tóxicas

A passagem de testemunho livrólica é, para mim, uma das heranças mais especiais. Porque nos permite deambular por outros géneros e porque nos permite guardar um pouco mais das nossas pessoas. Por isso, ter nas minhas estantes livros que pertenceram às bibliotecas particulares de familiares é indescritível. E este exemplar corresponde à terceira versão de um dos textos mais centrais de Eça de Queiroz, na qual existe uma diferença na conceção, no estilo e na caracterização do protagonista - sendo, inclusive, apresentada uma nova personagem.

«A madrugada rompia. A cidade estava silenciosa, os candeeiros apagavam-se»

O Crime do Padre Amaro surpreendeu-me pela fluidez, - porque não? -pelo seu traço sedutor e, sobretudo, pela pertinência dos temas, uma vez que este romance é muito mais que as infrações de um sacerdote. É uma porta aberta para decifrar os vícios, a corrupção do clero, as desigualdades económicas, os preconceitos e o peso que a religião e a Igreja exerciam na comunidade, toldando o seu discernimento. Além disso, leva-nos a refletir sobre a moral, sobre os contornos da mentira e sobre a questão do celibato. Sem, no entanto, esquecer um comportamento que é, no meu entender, altamente limitador: a imposição de um caminho, camuflada numa falaciosa preocupação em relação ao futuro, que em nada respeita o tempo e as necessidades individuais.

«Tinha constantemente o seu rosto presente, ele entrava sempre nos seus sonhos»

Com uma bandeira nos sentimentos proibidos e na toxidade das relações, expondo o verdadeiro caráter do ser humano e mostrando o impacto das nossas decisões - ponderadas ou obrigatórias, O Crime do Padre Amaro retrata a bisbilhotice, a futilidade, a hipocrisia e a dicotomia entre aquilo que é apregoado e o que é, efetivamente, realizado. Podendo - ou não - interferir com os nossos votos, esta obra aborda a fé. O amor. E todas as áreas cinzentas para as quais ninguém nos prepara.

«(...) é uma bela e grande coisa a paixão! O amor é uma das grandes forças da civilização»

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