Fotografia da minha autoria

«Só vejo o tempo a passar como quem dança no escuro»

A música portuguesa tem uma identidade que me comove, porque é representada por artistas absolutamente inspiradores. E eu cresci a escutar os nomes maiores do nosso palco, descobrindo, em mim, uma vontade imensa de acolher outros que poderiam não ser tão conhecidos assim. Porque, ao contrário daquilo que Luís Jardim afirma, o nosso país tem imenso talento - não são só meia dúzia de excelência. E um dos cantautores que comprova isso mesmo é João Couto, que lançou, recentemente, o seu segundo álbum de originais.

Boa Sorte é uma obra de arte em tudo o que o constitui. Portanto, não me refiro apenas à maravilhosa estrutura musical, mas também à sua vertente estética, que espelha o cuidado que a versão física exigiu. E é fascinante observar cada detalhe, sobretudo, porque todos eles parecem reservar-nos uma história singular nas suas entrelinhas. Atendendo a que adquiri o CD em pré-venda, pude escutá-lo antes de estar disponível em todas as plataformas digitais. E tem sido uma viagem surpreendente, que melhora a cada nova repetição.

Composto por 12 temas, é um trabalho de escrita minucioso, que tanto nos faz embarcar numa rota intimista, refletindo acerca da nossa jornada, das nossas emoções e perceções da realidade, como nos incentiva a descomplicar através de um ritmo mais dançável, de quem encara a vida com animação - mas que pode, igualmente, representar uma maneira de expiarmos as nossas inquietações. Porque, mesmo quando o tom é positivo - bastante mexido -, as letras transportam-nos para camadas plurais, fazendo-nos olhar para dentro.

João Couto é um contador de histórias nato e, por consequência, tem a capacidade de brincar com as palavras, sem descurar a mensagem, tornando o cenário visual. Por essa razão, ainda que a situação cantada não nos represente, é fácil senti-la na pele, porque permite-nos adequá-la ao nosso contexto. E isso só pode ser um traço de genialidade: porque se mantém consciente do que o rodeia. E de braço dado com uma certa nostalgia, que cria uma ponte entre o passado e o presente, há vários mundos e facetas a serem explorados.

O sucessor de Carta Aberta é um crescendo: de vivências, de influências, de caminhos, de sentimentos e de partilhas, até porque existem mais vozes a integrar este álbum. E acredito que tem tudo para ser um dos trabalhos mais promissores deste 2021, porque é feito de mudanças e de uma simbiose perfeita entre todas as suas competências enquanto músico. Apreciando o conjunto de canções, têm ainda mais força como um todo. Porque, embora apresentem essências distintas, individuais, interligam-se e equilibram-se. Ainda assim, reconheço, há três que conquistaram o meu coração por inteiro: Escuro, 4 da Manhã e Uma Nota / Perto.

Boa Sorte fundamenta a imagem que tenho do João Couto - um artista extraordinário, que merece chegar o mais longe possível - e reforça o meu fascínio pelo nosso belíssimo dialeto, visto que este álbum estreita laços. Mostra-nos que somos feitos de inúmeras versões. E que, apesar de caminharmos em contramão, temos um porto seguro, para onde podemos regressar. Da sua dropbox para o mundo, «Boa Sorte para sempre».

É um privilégio quando podemos escutar o coração de um artista fora do peito, em letras fantásticas. Por isso, dia

29 de outubro

, o João Couto tem concerto no

Auditório CCOP

, no Porto. Não percam esta oportunidade.