Quem mais tinha imensa curiosidade para o Prémio LeYa 2017?


Já conhecia o nome de João Pinto Coelho, por ter visto óptimas opiniões sobre "Perguntem a Sarah Gross", livro que, confesso, nunca li. Tendo o segundo livro do autor recebido este prémio, senti que era a hora e oportunidade de ler o seu trabalho.

O autor parte de um evento histórico, real, como descreve na nota no final do livro:

No dia 10 de Julho de 1941, em Jedwabne, pequena cidade do nordeste da Polónia, um grupo de cidadãos, na sua maioria cristão, reuniram à força os seus vizinhos judeus na praça principal e, num festim de violência, conduziram-nos até um celeiro próximo que incendiaram, queimando vivas centenas de pessoas, incluindo muitas crianças. Nos dias que se seguiram, sucederam-se as pilhagens e apagaram-e para sempre os traços seculares da presença judaica na cidade.

Há muita ficção (e não-ficção) sobre a II Guerra Mundial; no entanto, a maioria dessa obra fala-nos apenas da dicotomia Alemanha Nazi/judeus. João Pinto Coelho traz-nos o tratamento que a comunidade judaica sofreu também na Polónia, não sob a égide Nazi, mas pelos próprios polacos (digo "a maioria", pois Maus foca também neste outro lado). A participação polaca - aliás, o papel dos cidadãos polacos no que se passou na II Guerra Mundial é um tema muito controverso, pouco disseminado nas aulas e livros de História, e não exactamente assumido pelas autoridades polacas. A Polónia, e os polacos, são rápidos a assumir a ajuda que prestaram a cidadãos judeus; já o episódio do massacre de Jedwabne foi apenas investigado no início do século XXI (onde se concluiu que mais de 300 pessoas morreram), e é ainda hoje negado por algumas autoridades.

Mas peguemos agora n'Os Loucos da Rua Mazur.

Paris, 2001, Livraria Thibault (uma livraria fictícia, acrescente-se; mas podem-se inspirar nas várias livrarias que vi nos meses que vivi em Paris, seguindo esta etiqueta). Um livreiro cego, Yankel vive com a sua amante, mais uma numa série de amantes que lêem para ele. Após fugir da Polónia, seu país Natal, durante a II Guerra Mundial, radicou-se em Paris, onde aguarda agora a sua morte. Um dia, recebe uma visita, cuja voz reconhece, apesar de não a ouvir há 60 anos - Eryk, o seu melhor amigo de infância, que vivia na zona cristã da pequena aldeia polaca onde ambos haviam nascido.

 - E agora? Tem ideia do que se faz com meio livro?
Vivienne inclinou-se para a frente na cadeira. Quando falou, os seus rostos não distavam mais de um palmo.
 - Meio livro? Não seja inocente. Há mais de vinte anos que Eryk o tem escrito.

Eryk vive há décadas na Bélgica, onde se tornou escritor, sob o pseudónimo de Paul Lestrange. Eryk está velho, doente, e sabe que irá morrer - e, acompanhado da sua esposa e editora, Vivienne, decide visitar o amigo que não via desde o dia em que a comunidade cristã da pequena aldeia decidira matar toda a comunidade judaica. Quer escrever o último, derradeiro livro do conjunto da sua obra, aquele em que relatará tudo o que se passou, e precisa de Yankel para preencher os espaços em branco com aquilo que sempre vira, não obstante ser cego.

Vários escreveram sobre a sua experiência com a II Guerra Mundial - Viktor Frankl, Elie Wiesel, Primo Levi (que nunca li), Anne Frank, Art Spiegelman (com as memórias do seu pai)... Eryk não consegue, sozinho, escrever sobre o horror que viu, que viveu, que espera que o possa redimir perante o amigo e, quiçá, a humanidade, a vida. Eryk sente culpa, muita, e dor; e estas sensações bloqueiam a sua reconstrução dos acontecimentos. A partir desta visita, o livro oscila, capítulo a capítulo, entre a aldeia da Polónia dos anos 30/início dos anos 40 e Paris em 2001. Yankel e Eryk revivem a sua amizade de infância, alterada para sempre pela "intrusão" de Shionka, uma rapariga judia e muda, por cuja atenção e afecto os amigos, sem saber, lutam.

A noite caíra sobre o shtetl. Havia fios de fumo a subirem das fogueiras do Vigele e, com eles, a oração prolongava-se até Deus. Aos poucos, outras preces se juntavam vindas dos outros pátios, dos outros bairros, de todo o círculo perfeito.
Mais tarde, Yankel e Rasia ampararam-se um ao outro pelas ruas da cidade. Quando chegassem a casa, também ela acenderia a menorah e, sempre com o filho ao lado, maldiria a desgraça que o rabino anunciara:
Os alemães não estavam longe.

 

Maquetes das sinagogas de madeira da Polónia, Lituânia e Ucrânia, de arquitectura atípica. A maioria destas sinagogas foi destruída na II Guerra Mundial.

(fotos tiradas no Musée d'Art et d'Histoire du Judaïsme, em Paris)

A convivência, religiosa e não só, é pacífica na pequena aldeia; a mãe de Shionka é ostracizada por ser considerada bruxa, há um checo que ninguém sabe muito bem quem é, uma relíquia cuja posse é disputada, o rico cristão e o rico judeu que lutam pela influência. Mas a convivência é pacífica. Até que chegam as forças soviéticas, que levam cristãos para as gulags, depois as alemãs, que juntamente com o problema das gulags, levantam um forte sentimento de anti-semitismo. O confronto entre ideologias, entre as forças invasoras, acaba com a coexistência de séculos - cria ódio, xenofobia, leva vizinhos a assassinar vizinhos sem qualquer noção de remorso ou sensação de se estar a fazer algo errado. Sem qualquer iniciativa ou impulso Nazi - uma simples decisão de, uma noite, acabar com os amigos de anos, com os vizinhos, por questões de credo ou raça.

As descrições do massacre, e dos ataques que o antecedem, são absolutamente aterradoras. A situação extrema traz ao de cimo o melhor, mas também o pior nas personagens - nas pessoas - e a leitura torna-se incómoda. A crueldade, a maldade, a alteração de vidas e vivências em nome de uma ideologia incomodam. A anulação de séculos de história, de coexistência, de modos de vida, incomoda. Mas de que vale um livro se não trouxer, aos leitores, sentimentos e sensações?

O título do livro deve-se ao manicómio da Rua Mazur, rua da tal aldeia polaca. E o desenrolar das atrocidades, da falta de humanidade, levanta a questão: serão os ditos loucos mais mentalmente sãos que os outros?

E, voltando à narrativa de Eryk e Yankel, poderá o amor sobreviver à morte? E qual o poder da memória?

Cospe-se toda e, claro, cospe-me também, devo ter morangos por todo o lado.
Shionka!
A seguir, o costume: as gargalhadas, eu estridente, ela a sacudir-se, e só paramos de repente porque é impossível disparatar sem nos lembrarmos de Eryk e da falta terrível que nos faz.

Porque enquanto Eryk vive punido pela sua memória, por aquilo que não fez para ajudar o amigo, Yankel vive com a memória de Shionka, morta no massacre, com todos os outros judeus. E, no final das suas vidas, procuram reconciliar-se, não só um com o outro, mas com as memórias que carregam - com o peso da sua sobrevivência.

plot twists, há violência. Há muita, muita violência.

Destaca-se a forte pesquisa do autor, sobre o evento histórico em si, sobre as tradições judaicas, sobre a Polónia antes e durante a II Guerra Mundial. Por outro lado, o livro peca pelo sem-número de personagens, ou aliás, nomes: a população da aldeia, que não contribui acentuadamente para o desenrolar da narrativa e que se consegue tornar um pouco confusa.

4/5 e o desejo de comprar "Perguntem a Sarah Gross" em breve

Podem comprar esta edição aqui.