Ao caminho das pedras eu cismava

certa altura da noite, solitário.

Uma estrela teimosa engrinaldava

o luar, desfraldando o leve pálio.

Nas campinas o breu se fez em mim,

singular, com tremor de fundo assombro.

Repensava o destino e fui, enfim,

com o fardo da Dor sobre o meu ombro.

Repensava o destino e seu mistério,

numa agônica luz do pensamento

a jazer no meu peito um grito estéril!

Que razões eu buscava? Que alento

haveria no universo da saudade?

Vou contar-lhes, que a mente 'inda está clara,

nesta treva em que minha Dor invade

como a tarde caindo na seara.

Se nem posso dizer do meu passado

sem ao peito apertar sufoco grave

e na face um sorriso consternado,

posso ao menos contar que foi suave

a lembrança do amor de então perdido.

Quem me viu nesse tempo, hoje sabe

que nem basta morrer. O amor ferido

punge mesmo depois que tudo acabe.

Mas se a luz, qual condão das formas puras

de vestais, ensolara a vida inteira

de quem sente surgir nestas verduras,

novamente a esperança altaneira

num espasmo de cândido temor

vem soprar essa alma calejada

que sentira do excelso o seu candor,

um sonhar com perfume de alvorada.

Gabriel Rübinger e Vitor de Silva