Em um livro impossível, Isabel Lucas conta a história do País por meio da literatura.

Foto: Isabel Lucas em entrevista à Revista Estantes. Foto: Bruno Colaço/4SEE

André Vieira

Infância querida, futuro incerto: Brasil. Retrato de milhões de caras, terra dos mil cheiros: projeto dos ricos e poderosos, refúgio dos esquecidos da nação, memória fugaz de um tempo eterno. Brasil, substantivo abstrato de contradições reais. Monumento a genocidas, baluarte de carrascos, terraço de assassinos, estado da impunidade; palco dos gênios, pátio de santos, coreto a bondosos e justos, Pátria da esperança. Brasil: uma desconstrução a céu aberto, um canteiro de cinzas, uma fé em desmandos organizados: afinal, o que se pode esperar do país gigante pela própria natureza, com um futuro espelhado por sua grandeza?

De cara, seria injusto atribuir tal tarefa em um único livro. Assim Viagem ao país do futuro, parte de uma premissa impossível: descrever uma nação que ocupa metade da América Latina usando seus maiores escritores para contar sua história. Em 12 ensaios-reportagens, Isabel Lucas, a portuguesa mais brasileira que se tem notícia, desenha o imaginário das capitais São Paulo, Rio de Janeiro, Porto Alegre e Curitiba passando para realidade-mito das palafitas amazônicas, o colorido recôncavo baiano e os dois sertões no coração brasileiro: o de Antônio Conselheiro e Padre Cícero e da poesia rosiana.  

Capa do 2º capítulo do livro. Também disponível para leitura para o assinante do SLP. Ilustração: reprodução. /Suplemento literário de Pernambuco (SLP)

O objetivo do livro é claro: saber a qual país se referia — e por vezes ainda pensamos nele — o filósofo austríaco Stefen Zweig quando criou o epíteto Brasil, País do Futuro, em livro homônimo. Contudo, se o leitor espera encontrar uma obra que esclareça as idiossincrasias dessas terras e desses mares de maneira clara e objetiva, tal como uma reportagem de peso aventaria, se sentirá enganado. A intenção desta obra não é fechar questões ou encerrar discussões, mas sim propor novas perguntas vitalícias ao leitor impávido — cada vez mais curioso em redescobrir sua pátria na leitura dessas páginas.

Neste sentido, Viagem ao país do futuro é uma obra incompleta; todavia se pudéssemos tomar a falha de Isabel Lucas como guia universal, nos sentiríamos repletos de vida. Através de ensaios recheados de coloridos retratos, de erres arranhados e ésses arrastados, conhecemos uma terra estranhamente parecida com a que habitamos, ainda que o sentimento que norteie essas páginas e escapula naquelas linhas não seja o do Brasil que vemos todos os dias, concreto e incompreensível. Trata-se de um “sentir-pensar” pronunciado na “língua do indizível” cujo reconhecimento só é possível graças a um bom par de olhos.

A palavra é estranha. Sua substância habita tudo: a sombra maciça em casas fluminenses, a fala mitológica do puxador de canoas, o cheiro fresco de café forte com broa de milho, o silêncio dos prédios curitibanos em eterno estado de hibernação. São as vozes das ruas, os estribilhos das rádios e os passarinhares das matas que moldam e esculpem essa língua no ar: formando culturas, lapidando gestos e erigindo trejeitos. Em suma, a incompletude da obra de Lucas não é defeito; ela é fundamento para entender toda riqueza e toda incompreensão presente dentro de nós, só traduzível com mais parcas verdades e meias-certezas.

Conhecida em Lisboa por suas reportagens sobre a importância da literatura norte-americana para a construção do sonho americano, Isabel Lucas repete o método em Viagem ao país do Futuro. Foto: Reprodução/CEPE

Para nossa sorte, e óbvio mérito da escritora e seus editores, não estamos sozinhos na incursão à nossa terra. Ao longo de seus 12 capítulos temáticos, somos apresentados aos maiores narradores daqueles estados, cujas obras extrapolaram os limites territoriais. Nessas reportagens-ensaios há uma fina costura pela experiência de vida desses autores deslumbrando enxergar os muitos brasis que vivem em nosso país e, muitas vezes, mantêm-se latentes. Mas os mais velhos só falam a quem pode lhes ouvir, assim o relato desses medalhões é sempre acompanhado pelas vozes de escritores contemporâneos, criando um entrelaçamento íntimo de passado, presente e futuro.

O olhar da jornalista, em tempo, também é fundamental por direcionar nossas atenções, e por vezes, acentuar nossas próprias dúvidas sobre a importância de nós naqueles lugares. Se na introdução do livro, Lucas explica que foi contra as regras do que entende ser o jornalismo sendo “ambígua, abrangente, aberta, literária e amazónica (grafia portuguesa)”, na sua confecção, não faltam passagens e descrições que sublinham o melhor estilo jornalístico. Em que pese a escrita polissêmica, próprio do ensaio, Viagem ao país do futuro se mostra um texto cirúrgico, que traz ao leitor os antepostos necessários para entender os corações desse país.

Em essência, Viagem ao país do Futuro é um livro de paradoxos e paixões, sonhos e ilusões, de solitários e acompanhados, de multidões sozinhas e vazios compartilhados. Ilustração: Divulgação/Karina Freitas.

Se a objetividade não se revela um problema no livro, a fluidez do texto e as escolhas lexicais podem se mostrar um desafio para o leitor desabituado com a vertente europeia de nossa língua. Uma explicação possível para o livro transmitir um estranhamento desde sua narradora é, talvez, sua irrevogável verve de literatura de viagem. Encampando a curiosidade estrangeira, o livro traduz a jornada de uma portuguesa em busca de respostas: sejam para um país polarizado com a ascensão de Bolsonaro, sejam para um pai que partiu durante sua viagem — reflexões as quais sabemos a partir dos Travels logs no fim de cada capítulo.  

Em essência, Viagem ao país do Futuro é um livro de paradoxos e paixões, sonhos e ilusões. Conta a história de Felipes Netos, Marílias Mendonças e Negos do Borel, Bolsonaros e Lulas. De pardos, negros, brancos e indígenas. De cancelados e canceladores. De solitários e acompanhados. De multidões sozinhas e vazios compartilhados. E sobretudo do silêncio: o mesmo que encampa as lacunas das palavras que faltam nesse livro. Uma obra inestimável para entender as comemorações que se aproximam de nós em 2022: o bicentenário de nossa independência.  

Livro: Viagem ao país do futuro

Autora: Isabel Lucas

Editora: Cepe

Preço: R$ 55,00. Disponível aqui.

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Publicado por André Vieira

Jornalista gaiato e poeta-menor. Escrevo pequenas notas e algumas reportagens quando a missão vem à baila e engano — bem — na arte milenar do hai-cai fixo. Não gosto que cebolas toquem no purê de batatas. E sim, amigos, é bolacha e não bixxcoito. Ver todos os posts de André Vieira