A escritora Elif Batuman/divulgação
Romance finalista do Pulitzer, em “A Idiota”, protagonistas estão às voltas com erudição versus vida real, rindo de si mesmos em Harvard
Matheus Lopes Quirino
A Universidade pode ser um divisor de águas na vida dos que a frequentam. Frase banal para começar um texto, principalmente vindo de alguém que, como eu, a frequentou, e que, através de uma resenha, precisaria atestar alguma competência literária e estética para começar um texto com mais estilo. Compreendo, mas insisto. Ao falar da Universidade, refiro-me ao espírito universitário, outro lugar comum que é aniquilado neste texto; jogo luz imediatamente à Selin, protagonista de A Idiota, romance de Elif Batuman recém-lançado aqui no Brasil pela Companhia das Letras.
Selin é caloura no curso de Letras em Harvard. De ascendência turca, muitos ficam curiosos em como ela parou ali. E são cortados de forma hilariante, já no começo, quando ela diz que nasceu e cresceu em Nova Jérsei. Em Boston, ela começa a entrar em contato com diferentes mundos, através de colegas de quarto ou amigos das disciplinas que cursa, como Russo e Mundos Construídos, esta última ministrada por um artista plástico excêntrico.
A garota cai em um caldeirão borbulhante de todo tipo de paródia acadêmica, conhece na prática o que é diversidade, ao passo que também toma consciência de que pertence a uma elite intelectual abastada, sendo sua amiga Svetlana a encarnação do jovem burguês bon-vivant, do tipo que enumera os problemas como histórias dramáticas e rebuscadas, ao mesmo tempo em que os resolve comprando coisas caras.
Selin não é pedante ali. Ao caricaturar tipões do meio Universitário, Batuman poderia estar com batatas quentes na mão – o que não acontece. Ninguém ali soa pedante, a menos que o sejam propositalmente, enquanto a protagonista é uma jovem paciente e dócil. As cenas são cuidadosamente trabalhadas entre papos cabeça e julgamentos morais, o que diverte, afinal.
A protagonista logo descobre que não é um peixe fora d’água;ternura e curiosidade lhe abrem portas: ela possui erudição afinada, ao mesmo tempo em que é muito esforçada. Se desdobra para aprender russo, lendo o impagável Nina Na Sibéria, na classe de Varvara, a professora de russo, que a chama de Sônya. Durante o semestre de russo, ela conhece Ivan, um Húngaro que cursa matemática e adora Shakespeare. Ela se apaixona por ele, como deve ser em todo início de faculdade.
Em Boston ou em qualquer parte do mundo, no cerco universitário, as sensações e saias justas são universais. Figurões hilários e casmurros literalmente brotam dps lugares mais improváveis, como Svetlana, cuja amiga, Samambaia, é um detalhe engraçado na história. Primeiramente por seu nome, depois, pelas micro histórias ao redor de botânica, antes da moda das plantas no quarto chegarem por aqui. Em A Idiota, as micro historias entre Selin, Ivan, Svetlana, Ralph e outros personagens — cuidadosamente costuradas com um pano de fundo em que todos se conflitam. São muitos os personagens que aparecem, como em Henry James, nota a autora, todos são vitais, cada qual com sua graça.
A graça é o fio condutor. A Idiota é um livro deliciosamente despudorado de senso comum, embora a protagonista esbanje uma inocência sem precedentes. Ela é astuta, madura, mas não sagaz, só está no primeiro ano da faculdade. Faz parte. Peculiar, o cotidiano, por vezes hermético e arrastado da universidade, é um trunfo narrativo, afastando o romance do lugar comum de festas de fraternidade e outras bobagens, que não cabem em uma história profunda como a vida intelectual de uma escritora (Selin) em formação.
Inevitavelmente, como privilegiada, ela viaja bastante, para Paris, Budapeste e os vilarejos da Hungria, onde se candidata para ensinar inglês aos aldeões, numa espécie de Erasmus versão perrengue. A segunda parte do livro evoca o romance de formação tradicional, europeu, com a protagonista em cena literalmente entre caminhos e personagens interioranas, ricas em postura e peculiaridades. A busca por nacionalidade é uma questão presente. A Globalização, que teve seu ápice na primeira parte dos anos 2000, é um fator evidente, principalmente levando em consideração um mundo onde a internet era pré-histórica.
Selin e Ivan são travados, não trocam um selinho, ao menos explicitamente. Ironia. Logo ela que se arrastou até a Hungria atrás do rapaz, seu correspondente virtual noites a fio. A estada em Paris, com a tia Bojana é impagável, Svetlana, como diria uma amiga, pensa pela boca. Tal qual uma amiga de faculdade deste resenhista, que faço questão de citar, embora ao leitor possa soar confuso e incompreensível. Basta ler o livro de Batuman para gargalhar e entender, pois todos tivemos uma Svetlana na vida, fora da universidade mas, principalmente, dentro dela.
A Idiota
cotação **** (muito bom)
Eilif Batuman
Tradução de Odorico Leal
Companhia das Letras
Ano da edição 2021
488pp