Uma sainha cinza de algodão. Pensei por um momento que ele havia pegado do armário da mãe

Matheus Lopes Quirino

Foi uma chuva tão densa que perdi os sapatos. Cheguei pela garagem, já à noitinha, colocando a bicicleta no rancho, tentando não fazer barulho. Completamente encharcado, como um pinto no lixo – oh, a capa de chuva amarela, a máscara “bico de pato”! –, me embolei em uma toalha velha para o banho. Queria passar como uma sombra. Mamãe, ainda no trabalho. Escutei um jazzinho muito baixo lá de cima. Fui pela escada, depois corredor, ele me viu.

— Filho, molhou muito aí?

— Dessa vez não consegui escapar…

Abri a boca bem aberta. Não sei se, por um instante, fechei-a. Não lembro. A mesinha do escritório dele terrivelmente atulhada de livros, papéis, revistas, aquele cheiro de lavanda. Pai estava de saia. Saia, uma sainha cinza de algodão. Pensei por um momento que ele havia pegado do armário da mamãe. Mas não! Mamãe só usava calças, jeans grossos, azuis, americanos. No máximo num fim de semana no campo, na praia, muito raro ver ela devidamente ensaiada.

— Vai entrar mosca, filho…

— Vou tomar banho

Estava um calor insuportável, ar abafado, típico de verão chuvoso. Dentro de casa, infestação de bichos e ar de lavanda empesteado com citronela, velas aromáticas Granado, além do estalo da raquete elétrica limando os invasores alados que entravam pelas frestas. Antes de sair do cômodo, papai olhou da cintura para baixo. Corou, percebeu que estava de saia.

— Estou de cueca, tá um calor insuportável não é filho…

— Mas onde você arrumou essa ideia?

— Ah, uns alunos lá da faculdade, uns cabeludos que usam coque samurai, andam de bicicleta como você, vão assim para a aula, de saia, carrancudos, coque samurai, camisa gasta, sabe…

Os esquerdomachos desconstruídos, típico do meu pai, que continuou se gabando da potencialidade da saia, do frescor, da liberdade com que deslizava as pernas, ou podia refrescar aquela parte do conjunto ficando com o ventilador debaixo da saia. “Os irlandeses são visionários”, repetia, esfuziante. Deu meia volta, sentou-se no computador e começou a digitar, frenético, como de costume.

Esqueci da saia, do pai, dos hipsters que andam de bicicleta. Como teria sido convencido? “Usa saia, saia de homem é a moda!”, revolucionário? Será que havia achado bonito, prático? Me parece ser o maior conforto, ainda não provei. Quem sabe? Demorei no banho, pensando nas possibilidades da saia, de toda mística que cerca essa peça… em um homem.

Quando mamãe chegou, não se espantou muito. Estávamos na sala vendo o jornal. Ela torceu um pouco o nariz, pai foi logo falando:

— Ah, essa saia…

— Saia? Tô reparando é nesse teu crocs horroroso aí

— Mas o que é que tem?

— Quero que ele saia já daqui.

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Publicado por Matheus Lopes Quirino

Jornalista, foi repórter e editor-assistente do caderno Aliás do jornal O Estado de S. Paulo. Escreve sobre livros, artes visuais e cultura. Ver todos os posts de Matheus Lopes Quirino