Fiz duas adoções tardias e ele, sempre, ali, ao meu lado. Dizendo vai. Você pode. Você consegue. Estou aqui. Por você. Para você. Se prontificou até a mudar de cidade, aos 81 anos, para vir morar comigo.

Maria Paula Curto *

Juro que eu não queria optar por essa alternativa tão óbvia, mas foi chegando agosto e acabei caindo nessa “cilada consumista” (nem venha me dizer que é pelo afeto, mas essa data foi criada para aumentar as vendas no comércio, esteja certo disso…) Resolvi não contrariar a mente e fazer jorrar algumas ideias sobre o significado de ser pai. Nos últimos tempos, talvez pela adoção monoparental das minhas meninas (esse é o termo técnico para uma adoção como a minha, em que eu sou a única responsável legal pelas minhas filhas. Às vezes, eu acho isso ótimo, pois não tenho que dividir nenhuma decisão com ninguém, mas por outro lado, o preço de desempenhar o papel do “bonzinho e do mauzinho” no meu próprio ser é bem alto…Mas ok, faz parte. No meu caso, era isso ou não haveria adoção.), tenho percebido que existe um certo esvaziamento da figura paterna, principalmente em comunidades carentes. Parece haver uma geração inteira que desconhece o que seja um pai de verdade ou até mesmo um de mentirinha… Até nas classes mais “abastadas”, tem cada vez mais mulheres fazendo dupla jornada e exercendo duplo papel. E isso, creio, não deveria ser normal. Nós não queimamos sutiãs para assumir o lugar do outro, mas para que o nosso lugar tivesse valor e visibilidade. Certo?

Mamãe e papai durante o casamento de Marinez. Foto: Acervo da Autora

Mais uma vez, posso dizer que sou uma privilegiada. Não somente por ter nascido branca e de classe média, mas por ter tido um pai muito presente. (A mãe também, mas isso é conversa para maio, né?) Ele talvez assustasse pelo tamanho (1,90m de português), pelo bigode (repetindo: português, ok?) ou pela forma mais séria de ser, mas isso nunca impediu que ele conhecesse e se apaixonasse pelos meus amigos – e vice-versa – nas mais diversas etapas da minha vida. Quando ainda criança ou pré-adolescente, era ele quem me buscava nas festinhas de aniversário, e dava carona para a meninada da vizinhança no seu Fuscão azul ou na Brasília vermelha, de pijama e chinelo. Para acelerar a coisa. Mas não pensem que ele era esculachado com roupa não, de jeito nenhum, o coroa sempre foi superelegante (eu sou a desleixada total da família). Seus ternos eram feitos por um alfaiate (tá pensando que é pouca coisa? Não é não!), com tecidos e modelos clássicos escolhidos cuidadosamente por ele. Seus ternos fariam bonito em qualquer ocasião ainda hoje. Diferentemente de outros homens, ele sempre gostou de moda e curtia muito nossos passeios pela rua Tereza, em Petrópolis, nos ajudando a encontrar alguma pechincha nas diversas “bacias de roupa” que ficavam na entrada das lojas em liquidação. (Diga-se de passagem, eu também sou a mais pão dura entre todos. Além da mais esculhambada…) Até hoje meu pai adora um passeio num shopping e costuma dar opiniões valorosas sobre as roupas que eu ou suas netas provamos. Aliás, me sinto muito mais segura em comprar algo com a aprovação dele. O coroa sabe das coisas. E tem muito bom gosto. Afinal, ele se casou com a minha mãe!!!

Até hoje meu pai adora um passeio num shopping e costuma dar opiniões valorosas sobre as roupas que eu ou suas netas provamos. Aliás, me sinto muito mais segura em comprar algo com a aprovação dele. O coroa sabe das coisas. E tem muito bom gosto. Afinal, ele se casou com a minha mãe!!! Foto: Acervo da Autora.

Na juventude, ele nunca me prendeu em casa ou mandou eu colocar roupa menos decotada ou mais comprida. Ao contrário, lembro de um dia em que chegou a puxar um vestido meu um pouco mais para cima, dizendo que ficaria mais bonito. E ele, claro, tinha toda razão. Muito agitada e baladeira, eu saía todo fim de semana para as nights do RJ (baladas em SP) e não voltava antes das 4h da manhã. Sem qualquer stress. Nem celular. Tudo combinado com ele e dona Lucinda. A relação era baseada na confiança. Ele sabia que, de segunda a sexta, eu estudava como uma camela corna (sempre estudei muito e segui o mantra da família de que “educação é o que te faz crescer, é a única coisa que ninguém te tira, segue com você até a morte”), então, eu tinha o direito de aproveitar os finais de semana. Bastava dizer onde estaria e até que horas. Era o suficiente. E detalhe: eu ia de carro. Dirigindo. Primeiro, com o Godofredo, um chevette 1975, em que a ré não entrava quando ele estava aquecido (não me pergunte a lógica disso. Godô, para os íntimos, tinha vontade própria), depois, com Pierre, um gol plus novinho, que ele tinha tirado num consórcio (se não sabe o que significa, pergunta para alguém com mais de 50. Era o jeito de comprar carro na época) e dado para mim. Tudo bem que o Rio do final da década de 80 e 90 não era tão perigoso como agora, mas nunca foi uma cidade tranquila. Meus pais acreditavam que eu era capaz. Me deram liberdade com responsabilidade. Fui muito empoderada por eles e nem conhecia o termo, que à época ainda não existia…

Por conta dessa liberdade (ou por ser feinha e chata pra caramba), não tive muitos namorados. Não queria ficar presa a ninguém se eu tinha o mundo inteiro para conhecer. Mas dos poucos namorados que tive, meu pai nunca rejeitou ou proibiu nenhum, apenas usava um recurso extremamente inteligente: com um humor elegante e ironia fina, fazia imitações perfeitas das imperfeições deles. De um, imitava a voz anasalada, avisando bem alto pela casa, “seu amigo Roberto Carlos ao telefone”, de outro, o jeito de andar com os pés na posição 10 para as duas, e a bunda pra dentro. Com isso, ele criticava os possíveis futuros genros, extravasando o ciúme da filha única em stand-ups caseiros e eu me acabava de rir. Era ou não era genial?

Se tínhamos nossas discordâncias e desavenças? Claro! Umas das maiores discussões foi durante as eleições de 1989. A gente brigou feio. Lembro que fomos ao local da votação como dois verdadeiros oponentes: ele, todo collorido, acreditando naquele caçador de marajás, e eu, toda escarlate, esperançando por um Brasil que ainda não aconteceu. Ele venceu. Ou não. Só sei que, hoje, nunca estivemos tão unidos, na luta pela democracia. A estrela há de brilhar mais uma vez…

Três gerações reunidas em um encontro de caras & bocas. Foto: acervo da autora.

O único problema de ter um pai tão legal assim é que eu não posso culpá-lo por nada nessa vida. Tudo de errado que eu fiz ou venha a fazer, eu devo a mim mesma. É como Nietzsche afirmou: Deus está morto. Logo, a responsável pela bagaça toda sou eu e mais ninguém. Talvez fosse mais fácil se eu pudesse terceirizar essa responsabilidade. Escolhi a profissão errada? Foi por exigência do meu pai. Fui morar em outra cidade? Porque não havia espaço para mim em casa, meu pai me expulsou. Mas não. Infelizmente, eu fiz essas merdas todas por mim mesma. Ele sempre me apoiou em tudo. Fiz teatro aos 15, viajei sozinha para fora aos 22, vivi em pecado aos 23 e novamente aos 28, casei, separei, fui morar a 450km de distância, fiz duas adoções tardias e ele, sempre, ali, ao meu lado. Dizendo vai. Você pode. Você consegue. Estou aqui. Por você. Para você. Se prontificou até a mudar de cidade, aos 81 anos, para vir morar comigo.

O que eu faço com um pai desses? Apenas uma coisa: Agradeço. Muito. Obrigada, pai, por existir. Obrigada por ser meu pai. E, principalmente, muito obrigada pela liberdade corajosa e acolhedora de me deixar fazer as minhas próprias escolhas.

*Maria Paula é carioca, mãe e mestre em filosofia pela PUC-SP.