(Ademir Assunção)
O poeta Ademir Assunção distribuiu pela rede uma carta-manifesto que coincide com a Bienal do Livro de São Paulo. Ele questiona aspectos da indústria editorial, como o preconceito arraigado contra a poesia e a literatura experimental, etc., ou seja, o tipo de literatura praticado por ele em sua própria obra e na excelente revista Coyote, da qual é editor. Eu concordo com a maior parte das críticas de Ademir, mas farei algumas observações. Ele diz:
“Noventa por cento do que é vendido, ou que movimenta a Bienal do Livro, é lixo. (...) Também não me digam que o aumento das vendas da indústria editorial é bom para os escritores e poetas, porque faz com que as editoras possam investir em literatura e poesia de verdade. Conversa pra boi dormir. Esse lixo editorial atrapalha os escritores, os poetas, o público, o país. (...) Quem é acostumado a ler livros enganadores jamais vai gostar de literatura e de poesia de verdade, porque isso exige maior sofisticação, maior cuidado, tanto de quem faz quanto de quem lê. Literatura não ensina ninguém a ser feliz, não traz promessas artificiais de como se dar bem na vida. Literatura e poesia, ao contrário, trazem questionamentos, visões críticas, desconforto até, principalmente num mundo tão injusto, tão esquizofrênico, tão desconfortável.
“É por isso que quando apresentamos nossos livros aos editores, principalmente se for um livro de poesia, freqüentemente ouvimos: isso não vende. Por que? Porque estão acostumando os leitores com coisas fáceis, com coisas imbecis. (...) Quanto mais os livros imbecis vendem, mais a literatura e a poesia de verdade são estranguladas. Isso está acontecendo em escala escandalosa na música. Liguem o rádio, liguem a TV, pra ver se estou falando bobagem. Quando o nível cai abaixo de zero, isso só é bom para quem se pauta apenas por interesses comerciais.”
Eu concordo com tudo que está aí em cima, mas faço alguns reparos. O mais importante deles é: não devemos confundir livro com literatura, mercado editorial com arte literária. O livro e o mercado editorial existem como meio de circulação de informações, e isso nada tem a ver com arte. Livros de medicina, astronomia, ciências jurídicas, jardinagem, educação de bebês, teorias religiosas, engenharia, química, futebol, música, turismo, primeiros socorros, dicionários, gramáticas, dietas, etc., nada disso tem a ver com literatura e arte, mas tudo isso é necessário para a cultura, para a circulação de informações no país, para a respiração mental. Um povo precisa disso, até para distinguir, no meio disso tudo, o que presta e o que não.
A literatura é (sejamos realistas) dez por cento disto. Uma fatia menor da troca de informações na vida social. A indústria/mercado de livros vive disso, e não de literatura. A Bienal é feita para isso, não para a literatura. Mas quem não for capaz de ler livros sobre esses assuntos, jamais chegará um dia à literatura, que fica um degrau acima.
