A Mulher que Prendeu a Chuva e outras histórias

Mais contos - desta vez de uma autora portuguesa.

Teolinda Gersão é uma autora que eu "persegui" na Feira do Livro do ano passado, mas não encontrei o livro que pretendia e decidi não trazer nenhum, num qualquer acto de contenção inesperado. Meses mais tarde, encontrei esta edição na Dejà-Lu - e vinha autografada pela autora, e não lhe resisti.

Não sabia, de todo, ao que ia, quando peguei neste livro.

Não chovia há muito tempo e tudo tinha começado a morrer. Até as árvores e os pássaros. As pessoas tropeçavam em pássaros mortos (...)

Alguém era culpado pela seca. E depois começaram as vozes, na aldeia, de que a culpada era aquela mulher.

O livro é composto por 14 contos, todos eles curtos, todos eles relatando situações genéricas, banais, quotidianas. São mais que contos - como nos diz o título, são histórias. E talvez sejam histórias, e não contos, pelo elemento mágico. No conto que dá título ao livro, um empresário que cresceu no Brasil vem a Lisboa, em negócios, e no último dia da sua viagem tem tempo para usufruir da sua suite de luxo. É também nesse dia que ouve as senhoras da limpeza a falar da mulher que prendeu a chuva, numa terra em África.

Mas os contos passam-se numa multiplicidade de locais. Temos Berlim pré-queda do muro, temos Roma, temos New York logo a abrir o livro, em Cavalos Nocturnos:

Mas a América afinal não resolvia os problemas dos outros, nem sequer os seus, verificámos. Um dia, em Nova Iorque, as torres gémeas ruíram. O impossível, o impensável acontece. Mesmo em Nova Iorque.

E se a geografia é dispare e nos pode parecer distante, as temáticas são relativamente banais: maioritariamente em torno da desilusão, seja com o amor, com a vida, com a ideia da morte, com a pobreza. E, além da desilusão, o tempo, que passa, independentemente de tudo em seu redor.

Dois contos destacaram-se para mim: "A Ponte na Califórnia" e "Um Casaco de Raposa Vermelha". O primeiro pela crueza, pela dureza da vida de uma criança após o divórcio dos pais, e a esperança que lhe trouxe o facto de ter um cão, seguida por uma decisão que a mãe acaba por tomar; o segundo, esse é sublime de várias maneiras: uma mulher deseja um casaco, veste-o e sente que foi feito para ela; a sua identidade, a sua humanidade, alteram-se em torno do casaco.

Gostei ainda muito de "O Cão", que retrata a vida de um homem que vive em função da sua esposa cega. Encontrei o conto transcrito neste site, que tem uma secção dedicada à cegueira na literatura.

Fizera-se um bicho de toca, sentado na poltrona, olhando a televisão sem ver nada. Nos intervalos em que a cega não o chamava, para tratar de qualquer coisa. E quando ela chamava, ele ia. Como um cão. Agora via tudo muito claro e sentia-se outra vez raivoso. Como daquela vez, no escritório.

Um cão não morde no dono. E muito menos o mata, pensou. Mas ele não era cão. Era essa a diferença.


4/5

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