Madame K - Você é poeta, professora, pesquisadora. Como essas três dimensões atravessam seu processo criativo?
Adri Aleixo - Posso dizer que quando comecei a lecionar, há muitos anos, eu era tocada unicamente pelo poder da Literatura que, junto com meus alunos, eu também estava descobrindo. O tempo passou, vi que precisava estudar mais, aprofundar em algo que mexe tanto com quem sou. Fiz o Mestrado, emendei no Doutorado e aprendi muito sobre técnicas, conceitos e aprofundamento teórico. Isso é bom, mas muito difícil, parece que tira um pouco da poesia da vida, sabe? Estando hoje ainda em sala de aula, e ensinando na educação básica posso dizer com certeza que o que me toca é a condição social e a precariedade em que a educação se encontra. A difícil condição dos professores, das famílias e dos estudantes. A poesia, como sempre, tem me ancorado.
MK - Que marcas de Minas Gerais você reconhece na sua poesia? Há imagens, paisagens ou ritmos que você sente como “inegociavelmente mineiros” no que escreve?
AA - Minha poesia é essencialmente telúrica. Gosto de falar das miudezas, isso vem da minha mineiridade, especialmente de ter crescido no interior. Sou tocada pelas paisagens, os ritmos e as delicadezas que me transformaram no modo de ver e sentir a vida. Gosto dos causos, das serenatas, dos riachos, da comida e do nosso sotaque.
MK - Quais são as questões centrais que te movem como pesquisadora em literatura? Em que medida a “literatura feminina” ainda é uma categoria necessária para pensar o campo?
AA - Sou essencialmente movida pela questão de gênero. Minha tese é sobre a velhice na obra de Maria Valéria Rezende. Eu me reconheço nessa pesquisa. No mestrado, sobre a mesma autora, eu abordei a fabulação e seus personagens. Avancei para a questão do gênero na velhice e tenho lido textos intrigantes. A educação é transformadora e a literatura feminista de crucial importância. É preciso que continuemos a conquistar espaços. Cada vez mais eu quero estar perto das mulheres, acompanhar suas produções e crescer junto delas.
MK - O que te interessou na escrita da Maria Valéria Rezende e como essa pesquisa dialoga com a forma como você narra e monta vozes nos seus próprios poemas?
AA - A mulher atuante e destemida foi o que primeiro me chamou a atenção em MVR. Quando li em 2014 o romance Quarenta Dias, eu fiquei energizada, me reconheci naquela mãe-professora que passou a morar no íntimo do meu ser. Depois li O voo da guará vermelha e fiquei encantada com a riqueza de imagens e com a protagonista Irene sendo a precursora de uma transformação pela linguagem. Acho que sou tocada não só pelas suas personagens, mas também pelo seu modo de escrita, pelas frases longas e principalmente pelo regionalismo.
MK - Como é, para você, construir uma trajetória que está ao mesmo tempo na universidade e no mercado literário, fanzines, blogs, revistas, circuitos de leitura?
AA - É bem difícil cuidar de tudo, atualmente a poesia cedeu um importante espaço à pesquisa, é bom aprender e isso exige esforço, dedicação e ansiedade…mas sei que no futuro tudo há de desaguar num mar de palavras e versos.
MK - Seu primeiro livro, Des.caminhos, publicado em 2014, inaugura sua presença em livro pela Patuá. Que livro é esse hoje, quando você o relê? Você o vê como livro de estreia, de descoberta de voz, ou já enxerga ali linhas fortes que seguem até os trabalhos mais recentes?
AA - Eu enxergo nesse livro poemas que escrevi e que escreverei a vida inteira: seixos, rios, peculiaridades mineiras e a presença arrebatadora da mulher.
MK - Em seguida vem Pés, também pela Patuá. O título já sugere deslocamento, caminho, corpo em movimento. Como esse livro se relaciona com o anterior? Você o vê como uma continuação, um desdobramento ou uma ruptura em relação a Des.caminhos?
AA - Sem dúvida, e até sem querer é um aprofundamento do anterior. As minúcias, os espaços exíguos, o chão, tudo que faz pensar o céu. É um livro em que toco mais a questão da mulher.
MK - Em 2017 você lança a plaquete Impublicáveis. O título é ironia, provocação, comentário sobre o mercado editorial, ou fala de um lugar de risco em relação a temas, linguagem, forma?
AA - É uma provocação. Eu queria muito fazer um livro com as próprias mãos, ao mesmo tempo em que criava três filhos sozinha e precisava me colocar no mercado de trabalho. É também um livro com uma linguagem mais erótica e que está muito bem guardado para uma futura publicação com um grupo de inéditos.
MK - Com Das muitas formas de dizer o tempo, em 2019, você se junta ao fotógrafo Lori Figueiró para construir um livro em diálogo entre poesia e imagem, atravessado pela experiência do Vale do Jequitinhonha. Como nasceu essa parceria e que tipo de tempo vocês quiseram registrar ali – o tempo geográfico, o das pessoas, o tempo íntimo?
AA - A parceria surgiu de uma admiração recíproca e de um convite feito pelo Lori, eu sou fã incondicional do trabalho dele e do Vale do Jequitinhonha. É o meu livro de que mais gosto. Estamos, com certeza, falando do tempo das pessoas tão intangível e particular. Procurei retratar a experiência das pessoas que vivem “o sol inteiro”.
MK - Na sua escrita há uma atenção forte ao cotidiano. De onde vem esse olhar para o mínimo? Você se reconhece numa linhagem de poetas da “miudeza”, da crônica do dia a dia?
AA - Sim, me reconheço, uma vez me disseram que eu era minimalista. Eu gostei, acho que essa expressão abarca muitas grandezas. O meu olhar para o mínimo vem de uma infância rica em experiências na terra, no chão. Acho que nos identificamos com aquilo que amamos, penso que nasceu em mim esse amor, esse jeito de olhar pequenas coisas. Definitivamente eu não sou uma mulher urbana…
MK - Seu livro mais recente, O mistério da máquina de lavar, é um infantojuvenil publicado pela Arribaçã, com o menino Arnaldo perguntando para onde vão as coisas depois da lavagem. Como foi a passagem da poesia adulta para a literatura para crianças e jovens?
AA - Eu tentava escrever para crianças há muito tempo, essa história, por exemplo, existe há mais de dez anos, mas nunca havia conseguido deitá-la no papel. Acho bem mais difícil escrever para crianças. Sou mãe de três e professora, mas posso dizer que essa experiência não facilita em quase nada tocar esse mundo tão especial, enigmático e lúdico.
MK - Que preocupações você tinha – ou não tinha – ao escrever para esse outro público? E que mistério, para além da máquina, você queria que o livro levantasse?
AA - A preocupação é de sempre fazer algo bom, eu não publicava há seis anos justamente porque não queria escrever algo para simplesmente constar ou estar em evidência. Esse livro parte de uma ação cotidiana para alcançar o imponderável mistério das coisas que desaparecem, por fim reflete também a vida de crianças que têm pais separados.
MK - Olhando hoje para o conjunto – Des.caminhos, Pés, Impublicáveis, Das muitas formas de dizer o tempo e O mistério da máquina de lavar –, que linha de força você enxerga atravessando tudo? E que livro ainda não escrito te acompanha como projeto ou assombro?
AA - Os cinco livros trazem a questão do cotidiano e a importância das pequenas coisas: o claro domínio que não temos sobre elas. Estou escrevendo um livro de contos, vou bem devagar, é um projeto para o futuro, para depois do doutorado.





