O CULTO DOS NÚMEROS | Entre Margens
cultura da produtividade literária, aplicações de catalogação literária, meta de leitura anual, psicologia do hábito de leitura, gestão de tempo e leitura
Fotografia da minha autoria- texto originalmente escrito para o nº17 da newsletter e que me fez sentido trazer para o Entre Margens -A Desvaneio (sobre a qual já vos falei nesta publicação) foi lançada, oficialmente, em 2020. Esta aplicação literária permite, de uma forma resumida, organizar as leituras por marcadores, estabelecer metas diárias, acompanhar a nossa evolução e, até, vender/comprar/trocar livros. Além disso, podemos citar, classificar e escrever opiniões sobre as obras lidas. Mas há mais mundo para explorar. O design é um misto de Goodreads e um perfil de Instagram. É uma aplicação portuguesa. E é uma plataforma que alimenta o nosso lado livrólico, condensando num só lugar aquilo que nos move e todas as histórias que queremos preservar.A minha jornada nestas andanças começou no Goodreads, mas rendi-me rapidamente à Desvaneio. Hoje, alio-me a ambas, porque sinto que são uma excelente ferramenta para acompanhar o meu percurso literário. E é por as utilizar com regularidade que me ocorreu o Era uma vez deste mês: porque estamos a entrar no período dos balanços e da análise de metas literárias, para ser mais específica. Nesta altura, parece que o mundo se divide em dois pólos: de um lado, os que não atingiram os números idealizados; do outro, os que os ultrapassaram. De repente, anulam-se os meios termos. E, seja qual for o pólo em que nos coloquemos, haverá julgamentos, internos e externos, todos eles alimentados pelo incontrolável culto dos números.Focamo-nos muito nas metas, como se fossem uma medida exclusiva de sucesso, mas esquecemo-nos da quantidade de fatores paralelos que as condicionam. Numa sociedade cada vez mais digital, compreendo que seja fácil cairmos na armadilha, porque olhamos para o total e não vemos o plano de fundo, não vemos o que foi sendo construído para chegar àquele patamar; olhamos para o final e ignoramos os passos dados até esse fim. Acima de tudo, olhamos para aquele número (seja ele qual for) e desejamos ter um igual, sem nos ocorrer que a nossa realidade é diferente. Isto pode aplicar-se a tudo, mas pretendo manter-me no ambiente literário.Há uns dias, no discord do Livra-te, alguém partilhou o seu desafio de leitura, o que desencadeou alguma conversa, porque a meta tinha ultrapassado os 200 livros. Para ser mais precisa, ia nos 227. 227 livros em 11 meses corresponde a uma média de 20 exemplares por mês (se as contas estiverem mal, retenham que sou de Humanidades), o que é surpreendente e impressionante: imaginem apanhar boleia de 227 histórias! Perante as reações, que acredito que tenham sido de curiosidade genuína naquele contexto, fiquei a pensar que nós somos mesmo de extremos: ou apontamos o dedo por alguém ler pouco ou apontamos o dedo por ler muito.Mas o que é isto de ler muito ou pouco? Há uma quantidade instituída? Quem é que a definiu? Porque é que se eu ler cinco livros num ano é pouco, mas se alguém ler 100 já é muito? Sim, eu sei que 100 é maior do que cinco (nunca fui um génio a matemática, mas ainda sei o básico), no entanto, assumir isto implica anular todas as outras incógnitas da equação. Por mais alinhada que eu esteja com a leitura, não sou só os livros que tenho por ler: tenho um emprego, tenho família e amigos com quem conviver, tenho outros interesses para explorar, tenho picos de cansaço que anulam a minha concentração, episódios de séries para ver e uma série de outros parâmetros que me orientam, portanto, o meu tempo é gerido consoante cada um deles. E esta é uma realidade transversal, porque todos nós temos rotinas que nos deixam com mais ou menos predisposição.O ritmo de leitura, andar ou não de transportes públicos, aproveitar horas de almoço, fazer parte de clubes de leitura, manter leituras conjuntas, por exemplo, podem ser fatores que influenciam a quantidade de livros lidos num ano. Mas acho importante termos presente que cada um lê o que pode/quer/consegue, sem que isso deva ser motivo de crítica. Porque chega a um ponto em que o escrutínio é tanto, que parece que temos de pedir desculpa por estarmos a ler dez livros ou lermos cinquenta e acho que esse nunca deverá ser o propósito.Independentemente do que acontecer até ao final de 2023, este será o ano em que terei mais leituras, de acordo com os registos que faço desde 2015. E isso foi possível por três motivos: 1) concentrei-me mesmo na lista de livros por ler; 2) procurei diminuir a distância entre o momento em que comprei os livros e os li; 3) passei a aproveitar as minhas pausas de almoço para ler, em vez de estar nas redes sociais (ou não ocupar o tempo todo assim). Esta combinação traduziu-se num aumento numérico considerável, mas também podia não ter acontecido. Foi uma escolha que me fez sentido, mas podia não ter surgido e estava tudo bem na mesma.Estas metas, bem como a utilização de aplicações literárias, devem ser um estímulo positivo e não uma fonte de pressão, porque, no fundo, só representam estatísticas, não são uma régua que mede o leitor que podemos ser. Muito menos ditam qualidade. Depois, reparem, é tudo uma questão de perspetiva: se uma pessoa ler um livro por mês e, no ano seguinte, triplicar essa quantidade, vamos considerar que leu muito, quando comparamos os seus números; se uma pessoa ler dez livros por mês e, no ano seguinte, ler oito, não deixa de ler muito, mas vai parecer que não, porque diminuiu a quantidade. Alguma delas tem de se sentir culpada? Não. Alguma delas tem de se sentir superior? Também não. Isto não é uma competição. Ou não deveria ser.O culto do número talvez continue presente, mas podemos contornar a questão. É excelente estabelecermos objetivos, porque nos ajudam a assumir um compromisso - e querer ler mais, atenção, é bastante válido. Precisamos é de garantir que criamos metas adequadas à nossa realidade, metas que não nos deixem ansiosos. E, de preferência, temos de encontrar estratégias para não nos compararmos (sempre) aos outros.Daqui a uns anos, não nos vamos lembrar se lemos cinco livros em 2023 ou se lemos 200. Daqui a uns anos, vamo-nos lembrar da história que nos comoveu, da escrita que nos deixou tentados a explorar mais obras de determinado autor, até da personagem irritante que nos fez revirar os olhos. Portanto, acima de tudo, que seja muito maior a vontade de conversar sobre os livros que se colaram à nossa pele e menos sobre números.
Texto originalmente publicado em Entre Margens