Fotografia da minha autoria

«A dois passos do centro histórico de Gaia e do rio Douro»

A portada verde, cor de esperança, abre-nos os seus braços invisíveis. E recebe-nos num lugar com uma energia mística. Romântica. Desarmante. E curiosa. Porque as ruínas não impedem que se desenhe toda a beleza intrínseca à sua arquitetura. Outrora, transbordou de vida. Hoje, inquieta-nos com a sua história. Permite-nos escutar um silêncio tão cheio de paz. E convida-nos a explorar os seus trilhos inigualáveis, que só descobrimos se deambularmos pelo coração da minha cidade.

O Parque Quinta das Devesas situa-se na freguesia de Santa Marinha, mais concretamente na Rua Leonor de Freitas. E é ladeado pelos armazéns da Porto Barros. Como pontos de referência, encontramos, ainda, a estação das Devesas e a Ribeira de Santo Antão. Mergulhando a fundo, percebemos que há recantos infinitos para desbravarmos. E o Jardim das Camélias - como também é conhecido - revelou-se uma surpresa maravilhosa. Porque preserva uma alma pura, intimista e fascinante. Atendendo à «presença numerosa de japoneiras», o Município de Vila Nova de Gaia avançou para o desenvolvimento deste parque, tornando os terrenos inerentes ao solar num espaço aberto ao público. E eu sou muito grata por esta decisão, uma vez que é um pedaço de identidade que fica disponível para que seja um pouco mais nosso.

A requalificação deste património histórico e natural é uma prioridade. E, na minha ótica de viajante, sinto que é uma necessidade para que o local evidencie todo o seu potencial. Quando ultrapassamos o seu portão, somos recebidos por um tulipeiro - Liriodendron Tulipefera -, cuja espécie pode atingir os 60 metros de altura. No seu enlaço, avistamos, logo de seguida, um lago elegante. E o nosso olhar foca-se, posteriormente, no edifício abandonado, em decadência, constituído pelo tal Solar e por uma capela na lateral. Embora não tenha espreitado o seu interior, é visível o estado de degradação. Mas também sobressai a certeza de que, em tempos longínquos, foi magnânimo. Aliás, toda a área deste local é apenas uma amostra do que foi no passado, tendo em conta que era bem mais vasta, ocupando grande parte do território circundante. No entanto, pelo fragmento que resistiu a todas as mudanças, ficou um belo exemplar da sua essência.

Deslocando-nos para as traseiras, descobrimos o verdadeiro mundo encantado dos jardins. Na minha primeira visita, como fui em julho, não fiquei tão deslumbrada, pois as camélias não estavam em flor. Quando regressei, em meados de março, o espetáculo já foi outro, sendo recebida por uma imagem colorida, primaveril e variada, transformando este lugar num autêntico quadro de estímulos. Vagueando pela Avenida das Camélias, vimos os canteiros delimitados «por rachões de pedra». Deslumbramo-nos com árvores exóticas. Temos a hipótese de subir a escadaria que nos leva a outros patamares - também eles marcados pela flor protagonista. Mas a Quinta das Devesas - ou o que resta dela - não é só feita de Camélias: há um lago «coroado com uma pequena ponte», tanques e uma gruta «encimada por um mirante». Neste ambiente onírico, como alguém o denominou, é impossível negar a passagem do tempo, mas a paisagem arrebatadora minimiza esse rasgo de nostalgia.

O Parque Quinta das Devesas - Jardim das Camélias é, igualmente, um espaço de homenagem. De memória. De sossego. E de projeção. Porque há histórias que não se podem perder. Seja de vista. Seja do coração.