Os rapazes tinham um costume, uma brincadeira, não sei como lhe chamar, conta-me ele. Diziam que era fazer um bezerro. Marcavam uma rapariga, sempre de classe baixa. Um grupo armava-se em pretendente. Segui-a na rua, dizia-lhe coisas, seduzia-a.
Isto fazia-se no meio da semana, não podia levar muitos dias porque o bezerro fazia-se ao fim de semana, a conquista tinha de ser rápida. Quando a rapariga cedia, vinha o convite para o baile de sábado. Primeiro tomar qualquer coisa na pastelaria, depois um passeiozinho de carro. Nunca chegavam ao baile. O carro desviava-se para a praia ou para algum lugar solitário. Ali estava o resto do grupo à espera, e a rapariga tinha de passar por todos. Melhor dizendo, passavam-na de mão em mão. Depois davam-lhe dinheiro para ficar calada.
Raparigas Mortas, Selva Almada, 2014, edição D. Quixote 2017.
