“Falei de quando eu vi o mar pela primeira vez. Eu disse que nunca me esqueci disso. Eu acho que eu disse que foi a emoção mais forte que eu já senti.”
“Vou comprar algo. Quero pedir uma coisa e que ela esteja ao meu alcance. E depois quero segurar essa coisa entre as mãos e dizer obrigado por ela. Pagar e continuar andando.”
Nas páginas iniciais de Mar Azul, há uma sequência de diálogos entre a futura narradora e Vicky, cujo desaparecimento durante o regime militar argentino fará com que a amiga emigre para o Brasil; nela, acompanhamos uma nebulosa (porque o leitor não tem todos os fatos) de comentários e reações a eventos cruciais e ritos de passagem.
Veja-se um exemplo (até porque tem a ver com o título):
“__ Se eu esquecer, você me lembra?
__ Como assim?
__ É, se eu esquecer que quero ver o mar de novo. Sei lá, às vezes a gente esquece.
__ A gente esquece de comprar um negócio no supermercado, não disso.
__ Mas você me lembra?
__ E se eu também esquecer?
__ Você podia ser minha memória.
__ Só você mesmo.
__ Eu te conto e você não esquece.
__ Então me conta como foi o beijo que ele te deu.
__ Isso não.
__ Se eu for a sua memória, tenho que guardar tudo, né? Você não se lembra?
__ Mais ou menos.
__ Ele beijou, não beijou?
__ Beijou, mas com essas coisas é diferente.
__Diferente porque você quer contar.
__ Eu não sei contar.
__ É só dizer como foi.
__ Eu não sei falar disso.
__Você é uma tapada mesmo.”
A seguir, 50 capítulos curtos e densos em que a narradora setuagenária e aposentada, enfrentando achaques da idade e da mente (“propensão a não me livrar de nada”), examina os cadernos deixados pelo pai, o qual a deixara (para não dizer, abandonara) com a família de Vicky para trabalhar na construção de Brasília, e ao mesmo tempo —herdado o “hábito da anotação”— escreve no avesso deles.
O pai progressivamente perdeu a memória. A protagonista de Paloma Vidal tenta se equilibrar no sempre tenso e precário fio entre a rememoração daqueles eventos que eram matéria dos seus colóquios com a amiga, e a tentativa de bloquear a memória quando se aproxima de algum aspecto por demais brutal (a relação abusiva com um rapaz a quem denomina R é a aresta mais saliente[1]).
Nada disso é exatamente novo. Contudo Mar Azul revela-se um belo romance, avalizando a teimosia e vitalidade da ficção intimista contra as receitas da moda. Ele vem sendo definido como um romance da memória e da identidade (por conta do trânsito de Paloma entre sua origem argentina e sua vivência brasileira, especialmente enquanto escritora, e também devido às suas preocupações enquanto pesquisadora, como podemos constatar no ensaio Escrever de fora[2]).
Sim, são tons determinantes no espectro do relato. No entanto, a sua força maior reside na apreensão do cotidiano da narradora, os pequenos laços prático-afetivos que estabelece com porteiro e jornaleiro, suas idas e vindas aos consultórios de médicos do plano de saúde, sua necessidade de criar rotinas “positivas” (caminhar e nadar), tendo sempre o mar como uma espécie de amuleto, para não se deixar tragar pela melancolia dos cadernos que lê e nos quais anota: “O desejo que algum dia tive de nunca mais levantar pode se tornar uma existência”. Ou ainda, em outro diapasão: “Espero que algo me diga: vá. Algo que não sou eu, que não é minha voz, talvez meus músculos, minha pele, meus órgãos. Algo que se mova sozinho. Algo que me faça dar o próximo passo. Quando penso isso já estou debaixo do chuveiro e a sensação da água sobre mim me diz que o dia vai ser bom.” Mais adiante: “Por sorte meu corpo é bastante mais sensato do que eu.”
Parece um presente tênue, insubstancial em confronto com um passado tão miasmático (e é inquietante como toda uma experiência brasileira de décadas fica à sombra), mesmo assim ele se impõe sorrateiramente, até pelas mazelas físicas que dominam certos dias, ou pelas fantasias com homens que compartilham a piscina. É isso que a salva da propensão a não se livrar de nada, que poderia afogá-la no (mal) vivido.
Assim como O céu dos suicidas, de Ricardo Lísias, esse segundo romance da autora carrega em si gravidade, humanidade tanto quanto uma linguagem calibrada[3]. Muitos de seus colegas de ofício, e a maior parte dos “grantistas”,poderia aprender com eles.
[1] Antes da primeira relação sexual, como ela mesma narra, “eu senti uma coisa que não sei explicar, como se ele fosse um estranho, como se eu estivesse no quarto de alguém que eu tinha acabado de conhecer, mas já era tarde”. Não convém dar mais detalhes.
[2] Cujo subtítulo é Viagem e experiência na narrativa argentina contemporânea, Lumme Editor, 2011.
Na sua ficção, ela dá vida a preocupações ali expostas, como vemos no seguinte trecho de Mar Azul: “ Não pode haver luto que não seja de algum modo circunscrito por um evento. Quando uma ausência é a condição mesma do nosso modo de estar entre os outros seres, de viver tudo o que acontece”.
Em Escrever de fora, a propósito das narrativas da argentina Matilde Sánchez, cujos momento de iluminação posteriores à experiência como viajante não são marcado pela alegria, mas sim pela tristeza “de uma comprovação íntima, às vezes irreparável” (aqui é citada a própria Sánchez): “É provavelmente essa tristeza que a faz diferenciar a série de impressões da experiência proustiana. Benjamin identificou o dilacerante e explosivo impulso de felicidade que atravessa toda a obra de Proust, uma felicidade que ele relaciona à elegia, que retorna como restauração de uma felicidade original. Das longas frases proustianas, surge a recordação como recuperação dessa felicidade que rompe com o tédio. Já o que a une a ´série de impressões´ de Sánchez é a desolação, o sentimento do que está irremediavelmente perdido, do desperdício que ronda qualquer experiência, as viagens inclusive. Elas são o contrário da experiência da ´madeleine´, dotando a lembrança de uma opacidade melancólica.”
[3] Como todos os textos em que a linguagem representa uma “paixão medida”, encontramos formulações perfeitas, por exemplo:
“__ Você gosta dele?
__ Como é que a gente sabe uma coisa dessas?”






