ENTRELINHAS || OS MAIAS
literatura portuguesa do século XIX, realismo literário, análise de narrativa clássica, decadência da aristocracia portuguesa, importância da releitura literária
Fotografia da minha autoria«Episódios da vida romântica»Avisos de Conteúdo: Morte, SuicídioA minha maturidade literária demorou a construir-se, porque tardei a apaixonar-me por esta arte. Minto, tardei a priorizá-la, isso sim. Portanto, quando o meu caminho se cruzou com Eça de Queiroz, não tive sensibilidade para acompanhar a narrativa e para equacionar tudo aquilo que era motivo de análise, num plano ficcional. Mas faz tudo parte do crescimento, incluindo a vontade de revisitar as obras que não compreendemos.O PODER DAS RELEITURASOs Maias, cujo exemplar veio parar à minha estante quase como se fosse uma passagem de testemunho, continuava à espera do momento mais oportuno para redescobrir a sua história, que tem tanto de complexa, como de fascinante. É por esse motivo que sou tão apologista das releituras: porque abrem-nos outras portas.«Era um amor à Romeu, vindo de repente numa troca de olhares fatal e deslumbradora»Este romance intemporal tem um início bastante lento, mas o seu simbolismo marca o tom do enredo, não só por uma questão de contexto, mas também por ser palco de vivencias e fases antagónicas de uma família em particular. E é através dos Maias que conhecemos um pouco melhor a sociedade portuguesa do século XIX, naquilo que eram os seus luxos e os seus vícios; e, ainda, a sua visão erigida por um certo nível de privilégio.«(...) as lágrimas, duas a duas, corriam-lhe pela barba branca»Sem esta releitura, certamente que continuaria a formular uma imagem errada - condicionada por pensamentos de terceiros - e a não ser capaz de identificar todas as referências sociais e culturais que a tornam tão rica.RAMALHETE: ESPLENDOR E DECADÊNCIAA propriedade central - que merece uma descrição detalhada - mais parece uma das personagens principais, atendendo à importância que adquire. Porque o Ramalhete é mais do que uma casa: é um espaço de crescimento, de tragédia, de desnorte, de amor e desamor e, inclusive, é um espelho da vida boémia, das relações familiares - com todos os dramas e sentimentos que lhes são inerentes - e das desigualdade sociais.«(...) tudo em Sintra é divino. Não há cantinho que não seja um poema»É, também, neste lugar que assistimos à dor de um pai e ao renascer de uma das minhas personagens favoritas: Afonso da Maia. Embora, em determinados momentos, possa ser moralmente questionável, é inegável que se renovou perante um acontecimento atroz. E é na sua figura - austera e frágil - que equilibramos a diversão, o desleixo e a sobriedade. É na sua intervenção que compreendemos que o seu traço mais duro não o impede de ser extremoso. Assim, vai estabelecendo pontes com várias ligações interpessoais.«- Nunca sabe a gente quem mete em casa»Neste cenário, assistimos, portanto, ao esplendor e à decadência, pautados pela ironia da escrita e pelas almas corruptiveis, de personalidades ora incoerentes, ora bem intencionadas. Em simultâneo, é neste declínio que acabamos por nos reconhecer, pois esta narrativa representa uma caricatura muito fiel do ser humano.UM AMOR EM SEGUNDO PLANOA história deste amor impressiona-nos, sobretudo, pela sua natureza, pelas reviravoltas imprevisíveis e por estar contaminada, desde o primeiro momento, pela irresponsabilidade daqueles que nos deveriam proteger. No entanto, confesso, o que me conquistou foi mesmo o drama familiar, porque foi o impulso para o peso dos segredos, para o desgosto inerente à mentira e para a tragédia física e emocional. É por esse motivo que, para mim, o romance ficou em segundo plano: porque, apesar de ser crucial, é só uma parte de algo maior.«- É a tua mentira que nos separa, a tua horrível mentira...»Os Maias é irónico, é cómico, é desconcertante. Preferia que o final fosse menos célere, porque senti que poderia seguir por outro rumo. Apesar disso, é credível. E é notável que o seu retrato permaneça tão atual.Nota: O blogue é afiliado da Wook e da Bertrand. Ao adquirirem o[s] artigo[s] através dos links disponibilizados estão a contribuir para o seu crescimento literário - e não só. Muito obrigada pelo apoio ♥
Texto originalmente publicado em Entre Margens