as coisas maravilhosas de abril
literatura contemporânea portuguesa, resistência antifascista, memória histórica portuguesa, festivais literários, cultura pop e música lusófona
Fotografias da minha autoriaA narradora e protagonista d' O Meu Marido era capaz de bordar significados aos detalhes menos visíveis, encontrando uma certa noção de conforto e, talvez, de paz. Ao lê-la, percebi que fiquei presa a esta dinâmica, porque, de facto, de uma forma mais ou menos consciente, procuramos sempre atribuir correspondências: seja para justificar o que nos acontece, seja para o compreendermos - ou tentarmos perceber, pelo menos. Portanto, embora isto seja nebuloso, acredito que nenhum mês me assentaria melhor do que este: sou mesmo filha de abril.Assumindo o quanto sou suspeita nesta afirmação, o mês mais bonito do ano chegou com a promessa de momentos inesquecíveis e cumpriu. Aliás, até sinto que superou as expectativas que fiz por manter calibradas, atendendo a que se revestiu de vários pedaços de amor, de celebrações, de conquistas de amigos, de liberdade.O meu abril é um poema.as coisas maravilhosas de abril os fragmentos aleatóriosO Lugar das Árvores Tristes continua a fazer parte da minha lista de livros favoritos, por isso, estava muito curiosa com as histórias que a Lénia Rufino teria para nos contar a seguir. Sem querer que soe a cobrança, quatro anos depois fomos surpreendidos com Silêncio no Coração dos Pássaros e, confesso, foi bom abrir a encomenda, descobrir esta história e guardá-la na estante, lado a lado com a sua obra de estreia. A escrita da Lénia é preciosa!O meu afilhado surpreendeu-me com um cesto bem à minha imagem e o meu afilhado de coração trouxe-me mais um dedal para a minha coleção. A Marisa Vitoriano lançou um projeto de poesia, o Poesia à Deriva, e teve a amabilidade de me enviar uma carta e um poema - os correios queriam trocar-nos as voltas, mas, no fim, deu tudo certo. Fiquei mesmo sensibilizada!Recentemente, decidi aumentar a coleção de vinis e comprei a Box do Slow J, que inclui Afro Fado, You Are Forgiven e The Art Of Slowing Down, e o penúltimo trabalho do Plutonio, Sacrifício: Sangue, Lágrimas & Suor. as músicas e os álbunsInsomnia, Richie Campbell;do raso ao fundo, Mariana Nolasco & Maro;Carmen, Olivia Dean.Mundo Antena, Ana Bacalhau;Entre Nós, Bispo. as publicaçõesO sítio da minha infância amanheceu chuvoso, enegrecido, numa aparente apatia que desacelera os passos. É curioso como os nossos lugares acompanham o nosso estado de espírito, mesmo sem terem essa noção. São uma extensão subtil, ponderada, da alma que construímos com o tempo, mesmo quando já não o temos. O sítio da minha infância amanheceu desolado e em lágrimas, como eu.Há umas semanas, a Rita da Nova e o Guilherme Fonseca, no Terapia de Casal, estiveram a falar sobre o que venderia a loja do museu sobre as suas vidas. E os meus sentidos ficaram logo alerta, atendendo a que senti que poderia ser uma forma engraçada para celebrar a entrada nos trinta e três, sobretudo, pelo seu traço intimista.O Livra-te, podcast literário de Rita da Nova e Joana da Silva, num dos episódios de fevereiro, centrou-se num tema muito interessante: livros que caíram no esquecimento ou que acabaram por não ter a devida atenção. Na altura, como achei esse exercício bastante enriquecedor, transportei-o para a minha newsletter. Hoje (23/04), a propósito da celebração do Dia Mundial do Livro e dos Direitos de Autor, senti que fazia todo o sentido recuperá-lo. os filmes, as séries e os podcastsPonto NemoO termo Ponto Nemo, também conhecido como Polo da Inacessibilidade do Pacífico, refere-se ao local mais distante «de qualquer continente ou ilha do planeta». Ademais, inspirou uma produção luso-espanhola, de ficção científica, transmitida pela RTP. A série, gravada na Galiza e na Madeira, acompanha os membros de uma expedição oceanográfica, «formada por cientistas e a Armada Espanhola», que embarcam no navio Pentonkontors com o intuito de «investigar e consciencializar o mundo sobre os problemas da ilha de plástico». A missão é ótima, mas não será isenta de problemas.Daqui Houve ResistênciaA nova aposta televisiva da RTP, que será exibida durante esta semana, é baseada «em factos e personalidades reais sobre a resistência e a luta antifascista, centrada a Norte de Portugal, durante os treze anos que antecederam o 25 de abril de 1974». Assim, ao longo de cinco episódios, veremos retratada a oposição à ditadura nacional, sempre a partir de locais diferentes e a partir de «uma perspetiva descentralizada» desta luta. os livrosOs favoritos do mêsFilho do Pai, Hugo Gonçalves;Silêncio no Coração dos Pássaros, Lénia Rufino:Apesar do Sangue, Rita da Nova.Outros livros lidos: O Meu Marido, Maud Ventura | O Hóspede de Job, José Cardoso Pires | Os Loucos da Rua Mazur, João Pinto Coelho | Nem Todas as Árvores Morrem de Pé, Luísa Sobral | Vista Chinesa, Tatiana Salem Levy | Não Fossem as Sílabas do Sábado, Mariana Salomão Carrara | Quanto Tempo Tem Um Dia, Susana Moreira Marques | História da Menina Perdida, Elena Ferrante. os momentosLiteratura em ViagemO Festival Internacional Literatura em Viagem, o LeV, que é organizado pela Câmara Municipal de Matosinhos, encontrou nas palavras de Eduardo Lourenço o mote para mais um encontro: «mais importante do que o destino é a viagem». Cruzando memórias, conversas e diversas experiências, levantamos voo para descobrir histórias que combinam continentes longínquos e imaginação. Foi a primeira vez que marquei presença neste evento e apenas consegui ir ao último dia, ainda assim, trouxe três conversas maravilhosas e uma forte vontade de regressar - experiência completa aqui.Pedro Sampaio na Super Bock ArenaO caminho até os Jardins do Palácio de Cristal, quando fomos ver Sombra, espetáculo da Bumba na Fofinha, em outubro de 2024, foi pautado por muita conversa e por um desfecho para o qual não estava preparada: a possibilidade de regressarmos àquela sala para o concerto do Pedro Sampaio - experiência completa aqui. Abril abriu-me a porta dos 33, que espero que sejam generosos, revestiu-se de liberdade e de oscilações emocionais, levou-me até ao Wow, para conhecer o Museu da Cortiça, e até à Casa da Cultura de Avintes, para ouvir o meu vizinho a falar sobre o livro da sua vida. Além disso, trouxe-me o colo das minhas pessoas.A amiga Rita da Nova está a dias de lançar o seu terceiro livro e deu-me a oportunidade de conhecer a história antes de ser do mundo. Sei que tudo o que disser depois disto soará suspeito, mas foi mesmo um dos pontos altos do meu mês: porque adoro a escrita da Rita, porque acredito que é um privilégio viver no mesmo tempo que ela e porque o livro está extraordinário. Escrevi imenso sobre ele e, ainda assim, acho que nenhuma palavra fez justiça à sua mestria. Não sei o que é que fiz de bem para merecer tamanha amabilidade, mas sou uma sortuda!Maio, sê gentil ✨
Texto originalmente publicado em Entre Margens