Alberto da Veiga Guignard. Paisagem de Ouro Preto. 1950/divulgação – Coleção Zoe Chagas Freitas
CONTO
Suzana Mag*, Especial para Fina
Voltei aqui depois de uma imensidão de tempo. Quero rever a casa que virou uma fantasmagoria, uma inscrição secreta…Ah, se eu pudesse voltar ao que era antes, quando sentia a sua pulsação, depois litania, depois silêncio. Ficava numa esquina. Quando saí, já adulta, já estava no que é hoje: um frontispício retorcido, de pequenas janelas quadrangulares, rentes ao chão. Como se fora uma casamata, e que deitava fora pedregulho, areia molhada, cisco, e, de vez em quando, umas lagartixas lânguidas que corriam sem rumo certo.
Nem sempre fora assim. Tempos houve em que a sua orgulhosa quadratura se perfilara sob o sol ardente. Todos ainda viviam lá, querendo-se muito, confiantes de seus vastos sentimentos em face da eternidade, sem pressentir o mistério latente das coisas, que consiste em mudar sempre, em criar e destruir, e depois, inventar tudo de novo. As janelas se abriam para um quintal cheio de varais, pés de papoula, baldes sujos. Um gato branco de manchas cinzas dormia sempre no sofá da sala. As pessoas se congregavam nos quartos, jogando cartas e conversando até de madrugada.
Então, de uma hora para outra, a casa começou a mudar. Paredes arriaram e se desalinharam. Das nesgas, brotou um veio de tinta e reboco, as formigas fizeram serpentinas de folhas e cascas pútridas brotaram nos quartos e na cozinha. Na sala, formaram-se ninhos de grilos, cobras e moscas raras. As janelas mudaram de lugar ou desapareceram (lembro de uma, na sala, que passou a dar para um tristonho jardim de inverno, sem flores nem plantas, que apareceu ali do nada). A escada, por sua vez, esgarçou-se e se espichou, feito uma maria-mole. As pessoas tinham que descer e subir, fazendo malabarismos.
A Mãe ainda estava lá, a casa espojada no seu corpo de boneca impávida de porcelana. Mas se via lá dentro, na profundeza das espantadas pupilas cor-de-âmbar, uma linda e melancólica mocinha de cabelos escuros, sentada em uma pedra, em meio ao lago atravancado de chumaços gigantes e rolos de fumo.
A casa inclinara toda a ombreira, salpicando o quintal de telha partida, as portas se enroscaram, as dobradiças se entortaram.
Restaram as crianças e os bichos, que não colocavam os pés na casa. Deslizavam nela como peixes em um aquário. Depois, espreguiçavam-se e brincavam como fariam em qualquer outro lugar. Os antigos habitantes apareciam, às vezes, em um segundinho de nada, de tanto medo de serem transformados em vigas, pilastras ou esquadrias. Por isso, esqueceram também a outra casa, a dos bons tempos, a que se levantava altiva, cheia de sol.
Todos foram embora. Eu não. Quando eles se iam, os corpos apareciam inertes, debruçados nas grandes poltronas cor de vinho. Eu, não. Fiquei até onde pude. Só saí quando tudo me caiu por cima, precipitando-me em recessos vesgos, sem fim e nem começo.
E acabou-se.
Andei muitas terras, arrastando comigo os membros doídos da casa da esquina, que tive que destroncar, rearticular, imobilizar, para continuar vivendo. Agora, vou abrir a porta…e aceitar a sina.
*É escritora, autora de Retorno a 64 (Cajuína)