Desde que me lembro de ser gente que não gosto do carnaval. Mesmo quando a minha mãe me arranjava máscaras giríssimas, eu lembro-me de não estar feliz. Acho que nunca gostei de alturas em que fosse obrigada a estar feliz por decreto. Essa obrigação sempre exacerbou a minha tristeza. Tento nascido numa terra em que o carnaval é parte da cultura e nos está nos genes (acho que tinha dias a primeira vez que fui à Batalha das Flores) sempre fui um ser estranho naquele meio. Não tenho uma memória feliz do Carnaval propriamente dito mas tenho várias daqueles dias. Carnaval para mim não é sinónimo de brincadeira e alegria mas é sinónimo de...regueifa. Sim, leram bem, regueifa. Eu explico. Passava sempre o Carnaval na casa da minha avó, era uma espécie de tradição familiar encontrarmo-nos todos por lá.  E no dia de carnaval o meu tio trazia sempre regueifa para todos. Chegar a casa no domingo de carnaval à tarde e comer regueifa com manteiga era já uma tradição e nunca deixo de lembrar dele nestes dias ou quando como regueifa (a que sempre chamei pão doce mas isso é outra história). 

Carnaval para mim não é sinónimo de folia, bailes ou máscaras.  Carnaval para mim é sinónimo de...livros. Eu explico. Ir à Batalha das Flores, assim se chama o Carnaval de Loulé, era quase uma obrigação. A minha mãe chateava-me a moleirinha para ir com ela ver passar o corso à avenida. Como uma tia minha minha morava num apartamento cuja varanda dava para a dita avenida era para lá que íamos. Eu nunca me esquecia de um livro. Enquanto elas se debruçavam na varanda a ver passar os carros alegóricos, eu mergulhava num qualquer mundo enrolada no sofá. E assim passava a tarde a ser feliz com os meus livros.