“__ Somos um povo acostumado às prisões e aos golpes (…) Tudo desmorona rapidamente. É bom favorecer o desabamento. É preciso arrancar a velha tradição pela raiz…”
“Issa cerrou os olhos para ver o passado. Época viva como o pulsar do coração. A efervescência da glória sempre presente nos ouvidos. Os cassetetes de soldados como foguetes. O entusiasmo que mata as almas. O fascínio que reduz as energias. A fraqueza que evolui como uma doçura. Depois, o terremoto, sem que nenhum cachorro o prenunciasse. À procura do consolo para um coração vazio e o barulho do telefone como a voz do nada”.
“__Às vezes penso que é melhor não ter uma função num país que tem um rumo, do que ter uma função num país que não tem um rumo” (Nagib Mahfuz, trechos de As codornas e o outono)
SEM QUE NENHUM CACHORRO PRENUNCIASSE
Se nos últimos meses o noticiário a respeito do Egito arrefeceu, certamente à lembrança do meu leitor virá o maciço interesse mundial, no ano passado, em torno das mudanças políticas no país que constituíram um dos focos da chamada “Primavera Árabe” (pensando no papel das redes sociais e dos jovens nessas manifestações, lembro aqui a frase de Hassan, um dos personagens de As codornas e o outono: “A juventude só pode contar consigo mesma”), as quais possibilitaram, pela primeira vez em décadas, eleições (apesar das artimanhas constitucionais e jurídicas dos militares), após a destituição de Hosni Mubarak. Para mim, que—afora aquele fascínio-padrão que o Egito da Antiguidade e dos faraós sempre exerceu—cresci nos anos 70 em que era muito presente e forte, nem sei bem por que, a figura do presidente Anwar Sadat (assassinado em 1981), tais acontecimentos estão entre os mais apaixonantes desse novo milênio.
Por causa da “aura” sadatiana da minha infância e começo de adolescência, eu quis ler de imediato a primeira tradução brasileira de Nagib Mahfuz[1] (1911-2006) , lançada por uma editora, a Espaço e Tempo, de curta vida, um ano após seu anúncio como o Nobel de 1988: As codornas e o outono [as-Summan ual-Kharif, 1962, na versão de Alphonse Nagib Sabbagh & João Baptista M.Vargens].
Agora que a edição original do romance completa 50 anos, confesso que os acontecimentos da “Primavera Árabe” pesaram muito no desejo de uma releitura e de uma revisão, tanto quanto a efeméride.
Gostei de As codornas e o outono na primeira leitura, no entanto foi uma experiência de estranheza. Talvez fosse a tradução: feita por estudiosos do árabe, professores da URFJ, talvez lhes faltando um traquejo literário, o texto por vezes parecia muito esquisito na transição de um parágrafo para o outro, nas considerações do narrador sobre a psicologia do seu protagonista. Sou propenso a crer que aí estava o famoso “choque de culturas” e que o estilo, a psicologia e o ritmo eram realmente estranhos. Fora um contato nu e cru com um mundo realmente diferente, e essa experiência de estranheza era igualmente sedutora. Com menos arestas, as outras leituras que fiz de Mahfuz em português me envolveram mais como leitor, por isso gosto mais (como leitor de uma tradução, bem entendido) de Miramar e O beco do pilão, sem falar no caso da poderosa trilogia composta por Entre dois palácios, O palácio do desejo e O jardim do passado, que foi traduzida da versão inglesa, e de Noites das mil e uma noites, cuja tradução (a editora não deixou muito claro) também me parece versão de uma versão (posso estar enganado, é claro).
Talvez eu tenha evoluído muito pouco como leitor, pois gostei de reler As codornas e o outono (assustado com o fato de que já se passaram 23 anos entre a primeira e a segunda experiência com o livro) e a estranheza persistiu.
O que não causa nenhuma estranheza ao leitor brasileiro é a presença maciça da figura do funcionário público no tecido social e as acusações de corrupção e desvio de dinheiro (“Creia em mim. A corrupção é geral. Para os donos do poder, a única preocupação é o enriquecimento ilícito. Com o ar, respiramos a corrupção”), elementos que fizeram o livro bem mais vivo para mim nessa releitura.
O relato abrange o período que vai da Revolução Nacionalista, que derrubou o rei, em 1952, até a crise do Canal de Suez, em 1956, embora não haja nenhuma exposição didática ou tentativa de se fazer um painel histórico e social.
Todo o foco narrativo está colado nas percepções e peripécias de Issa Ibrahim Ad-Dabbagh, funcionário do segundo escalão, com fortes possibilidades de ascender ao primeiro, e já com algum poder e influência (por exemplo, é uma figura conhecida pelo público), com a perspectiva de casamento com uma jovem “da alta”, Salua, filha de uma figura de prestígio (caracterizado de maneira eloquente: “Não tinha cor partidária fixa, ou tinha uma policromia, como um arco-íris”).
Com a Revolução, Issa cai em relativa desgraça. Fica com o seu “saldo bancário” (referido inúmeras vezes na narrativa), na verdade um eufemismo para os trâmites corruptos que exerceu no seu cargo (motivo da sua dispensa do serviço público, sem sanções judiciais) e durante dois anos receberá seu salário completo: “O chefe do serviço do pessoal chamou-o para lhe comunicar sua imediata aposentadoria, acrescentando dois anos a seu tempo de serviço. Era o chefe que tinha assinado o memorando de sua promoção extraordinária para o segundo escalão. Talvez ainda guardasse a minuta do texto de sua promoção para o primeiro escalão, já que havia sido preparada para ser encaminhada ao Conselho de Ministros uma semana antes da anulação do Tratado…”. Nada de julgamento de Mensalão para Issa, é só ele “se fazer de morto” e deixar tudo assentar.
O maior dissabor a essa altura é o rompimento do noivado. A família de Salua (e ela própria ao que parece) não querem se associar a uma figura em “queda” (há também um inoportuno incidente de cunho sexual, narrado com concisa discrição por Mahfuz:”Movido por um impulso incontrolável, Issa deu a volta no corpo e abraçou-a. Ao dirigir seu olhar aveludado para o noivo, o corpo de Salua entregou-se em seus braços. Sua angústia transformou-se, repentinamente, em desejo sexual. Rosto contra rosto. Lábios agressivos contra lábios finos. Tudo obedecia a uma paixão que procurava abrigo. Ela o impediu com a mão estendida, discretamente. Virou o rosto tentando escapar. Separam-se já sem fôlego. Os amantes separavam-se num silêncio sepulcral. Um com ar de queixa, o outro desculpando-se pela maneira como traduziu sua excitação”).
“Aposentado”, sem noiva, sem futuro (“Meu futuro já passou”, ele diz para as irmãs, quando anuncia sua intenção de viver em Alexandria), sem perspectivas (mas com seu “saldo bancário” e seu salário por dois anos), um amargurado Issa (“Naquele momento, percebeu o quadro da mais perfeita indiferença com que o mundo tomava conhecimento de sua catástrofe (…) Aquele rosto destinado a aparecer nas primeiras páginas dos jornais, por que naquele instante parecia com o do gigante e lendário dinossauro?”) arrasta-se pelos cafés com correligionários (de vários matizes e adaptação vária ao novo “estado das coisas”), aguardando a volta do antigo regime, torcendo pela interferência das potências ocidentais que reponha tudo no seu devido lugar:
“Pensava a respeito da função cobiçada que, na verdade, já não mais possuía. Pensava sobre o salário, apenas por mais dois anos, e sobre o saldo bancário (…) Sem dúvida, o número de culpados era o dobro dos punidos. Ele era um culpado e seus amigos também. Onde estariam os dias longos e puros? Onde? O fim são os ´presentes´ proibidos, a corrupção. De repente, o fracasso, quando esperava altos postos que o conduzissem à cúpula do Ministério? Como seria possível conviver com quem esquecia, desconhecia e insultava? As glórias foram afastadas, como se jamais tivessem existido e os erros foram desfraldados como bandeiras.”
É notável a maneira como Mahfuz, sem uma única digressão, nos dá a atmosfera política da época apenas com seu grupinho de ressentidos e derrotados (“Éramos a vanguarda de uma revolução. Agora somos os destroços de uma revolução”) em cafés-restaurantes, seus encontros, suas mútuas provocações, suas hierarquias. Nesse momento, o livro adquire um cunho quase flaubertiano, aquele clima de Educação Sentimental, do declínio de uma geração (esse é o clima que justifica o título, aliás: “Vêem-se, também, os bandos de codornas deslizando para o destino inevitável, depois de uma viagem árdua, cheia de heroísmo imaginário”), embora se possa dizer que esse “outono” veio prematura e inesperadamente, dada a juventude do herói do livro (na faixa dos 30 anos): “Fomos enterrados vivos pelos fatos”.
Contudo, os impasses da vida de Issa serão relatados com a mais legítima linguagem narrativa do século XX por Mahfuz, que então deixava para trás tanto suas experiências com o folhetim histórico de sua primeira fase (O jogo do destino, A batalha de Tebas) quanto o painel romanesco à século XIX (a Trilogia do Cairo). Na verdade, As codornas e o outono, a partir da mudança de Issa, do Cairo para Alexandria (onde levará uma existência boêmia, de “flâneur” e se envolverá com uma prostituta adolescente, Riri, que terá uma filha dele), se eu tivesse de procurar paralelos ocidentais, me parece uma mistura do clima de espera e frustração de O deserto dos tártaros (ou seja, do universo buzzatiano), com o clima de tédio difuso (“Divagar pela manhã entre um bar e outro, o encontro de El-Bodega à tarde para dividir as angústias, visitas desagradáveis no seio familiar… Depois dos frequentes e sucessivos fracassos, o que viria? Ele sofria de doenças severas: a solidão e o tédio”) e desmoralização social (“Enquanto existir o esquecimento e a rotina, tudo é possível”) dos grandes textos de Alberto Moravia (é lógico que posso estar escrevendo uma grande e equivocada bobagem em função do meu desconhecimento do mundo árabe).
Pressionado por todos os lados (inclusive por um primo, cuja ascensão no novo regime, é causa de despeito e rancor para Issa), para que trabalhe e encontre um novo rumo na vida, nosso herói é um “homem sem função” e por isso se deixa envolver, quase passivamente, numa relação em que Riri se torna amante e empregada, até que anuncia sua gravidez. Não é bonito o papel dele na história toda, da qual foge ao receber o anúncio da morte da mãe, que o levará de volta ao Cairo. Negociando a venda da casa dela (que deixara ainda mais estável, por bons anos, seu mítico “saldo bancário”), Issa conhecerá a voluntariosa Inaiat e sua fllha, já madura, Qadriia, a qual se tornará sua esposa. Ele será o marido de uma mulher abastada, que vive do dinheiro dela. Continuará não trabalhando, continuará pressionado por todos, mas nas viagens aos lugares de veraneio, um novo vício vai entretê-lo: o jogo: “Issa adeiru ao pôquer com grande facilidade. O jogo e as noites perdidas até a madrugada foram a causa do primeiro conflito entre ele e Qadriia..”
Essa dissipação trazendo conflitos com a mulher (pela qual não consegue ter grande interesse), tentando salvar o casamento, vão passar uma temporada em Alexandria, mesmo porque a capital está ameaçada por bombardeios devido à crise ocasionada pela questão do Canal de Suez. É nesse momento que Issa se recobra um pouco do desperdício que é sua vida e se vê, independentemente do regime, como um egípcio, e como tudo poderia ter sido diferente se tivesse se engajado no movimento nacionalista. Ao mesmo tempo, revê Riri (agora bem casada e estabelecida como dona de um quiosque), e descobre que tem uma filha, que o encanta (“Era fruto do tédio do pai e do medo da mãe. Desses dois estados d´alma surgiu uma criatura atraente, cheia de saúde e de felicidade. Foi feita a vontade de uma força oculta”). Tenta se reaproximar, mas é rechaçado.
O casamento está por um fio, o país está em convulsão, sendo atacado, ele não consegue se redimir com a antiga amante, sente-se afastado dos seus correligionários de sempre devido aos seus novos sentimentos e reações ao rumo do país, Issa está num impasse. E ao encontrar um rapaz a quem no passado, quando tinha poder, a quem interrogara anos antes (“…não conseguiu condená-lo, mas, mesmo assim, foi mandado para a prisão e nela permaneceu até a dissolução do ministério”), que insiste em lhe fazer companhia na longa madrugada, o que será dele? Não sabemos, Mahfuz não permite que saibamos mais a respeito do destino de seu personagem, deixando tudo em aberto. Veja-se o belo final (que se desprega das comparações com Buzzati e Moravia, e Issa talvez se despregue de suas “severas doenças”) de As codornas e o outono:
“…O moço levantou-se e afirmou:
__ Você não deseja conversar comigo. Não é justo incomodá-lo mais do que já fiz…
Afastou-se em direção á cidade. Issa acompanhou-o com os olhos. Que moço estranho! O que estaria fazendo? As desventuras prepararam-no? Por que olha para a frente sempre com um sorriso no rosto?
Continuou a acompanhá-lo até alcançar o fim da praça. Não estava mal-intencionado, como imaginara. Não queria prejudicá-lo. Não conseguiu estabelecer o diálogo. Não teria sido possível contar com ele para ajudar a vencer o desgosto naquela hora da noite? A conversa não os levaria a um objetivo comum que tornasse a vigília mais amena?
Issa persistiu olhando-o até desaparecer em direção à rua Sofia Zaghlul. Pensou: Poderei alcançá-lo, se eu não perder um segundo, fruto da indecisão.
Levantou-se, pulando num êxtase de entusiasmo repentino. Andou, a passos largos, tentando chegar ao rapaz. Deixou, para trás, o banco vazio, solitário na escuridão.”
Como afirma Samir, o amigo de Issa adepto do sufismo, “Às vezes, uma catástrofe serve para endireitar o nosso caminho”.Afinal, na metade do relato, o próprio ex-funcionário do segundo escalão, já chegara à conclusão de que “O pior de tudo é que, mesmo não gostando dos novos tempos, você não pode recusá-los”. Não é a mais pura verdade?[2]
(escrito especialmente para o blog, setembro de 2012)
ANEXO– Como a edição que comentei acima está fora de catálogo há muito tempo, e talvez seja difícil encontrá-la, abaixo reproduzo alguns trechos para dar uma ideia mais precisa de As codornas e o outono.
Os dois primeiros parágrafos:
“O trem parou. Ninguém o esperava. Onde estava o secretário? E os funcionários da repartição? E os contínuos? Em vão fitou o lugar e as pessoas. O que aconteceu? Será que o Cairo ficou tonto sob o impacto do ataque criminoso do Canal?
Deixou seu lugar à frente do vagão carregando a pequena mala em direção à saída. O semblante impregnado de insatisfação. Estava perturbado. De imediato, observou os rostos e percebeu o reflexo de um terrível retraimento. No seu íntimo, brotavam suposições e rumores. Seriam as recentes vítimas do Canal ou novas tristezas assolando? Perguntaria às pessoas sobre o que se passou? Mas ninguém o esperava. Ninguém do escritório. Fato estranho! Dias incomuns, com certeza.” [note-se que desde o princípio, Mahfuz deixa de lado a narrativa onisciente para se dedicar a acompanhar o ponto-de-vista de Issa, que será dominante ao longo dos 31 capítulos do relato];
“A atmosfera estava carregada de várias possibilidades contraditórias. Tudo, porém, convergia para tirar a tranquilidade de Issa. Vivia com os nervos à flor da pele. O adiamento do matrimônio tornou-se inevitável (…) Os pontos de interrogação apareciam à sua frente e à frente de seus amigos, como aquelas bandeiras pretas nas praias, quando o mar está agitado. Ruminavam os boatos amargos. Soube-se depois que seu primo Hassan fora escolhido para ocupar um importante cargo. A porta estava aberta para outras funções de relevância. Decididamente, Hassan fazia parte do novo mundo. Tal notícia atingiu Issa muito mais do que os próprios acontecimentos.” [Hassan é quem faz as afirmações que coloquei na epígrafe inicial]
“A caminho de sua casa, fitava as pessoas de um modo diferente, como se as estivesse vendo pela primeira vez. Eram estranhos, que nada tinham a ver com ele e, tampouco, ele nada tinha a ver com eles.
Exilado na grande cidade. Perseguido sem perseguição. Estranhava como a terra cedera sob seus pés, parecendo uma poeira volátil. As bases ruíram após uma resistência de um quarto de século…
Olhou o rosto acabado da mãe. A notícia a surpreendera. Colocou a palma da mão sobre a cabeça dele, como para estancar uma dor crescente, e baixinho perguntava:
__ Por que fazem assim com você, filhinho?”
“Todas [as irmãs] gostavam sinceramente de Issa. Não apenas por ele ser brilhante, o que muito as orgulhava, mas também porque deviam a ele as promoções de seus maridos, na época em que tinha influência.”
[1] Caso alguém estranhe, com relação às minhas resenhas sobre o grande escritor egípcio, que a grafia do nome e do sobrenome não apresentem coerência de um texto para o outro, a culpa cabe às edições brasileiras, nas quais ele aparece também como “Naguib” ou “Mahfouz”.
[2] Como certos personagens de Thomas Mann, o dilema de Issa é estar sempre ao lado do passado: “Na verdade, às vezes minha razão fica convencida da revolução, mas meu coração está sempre ao lado do passado”.













