NOTA DO EDITOR Semanalmente, o colunista destaca notas sobre a cena cultural. Em eventos presenciais e, devido ao momento pandêmico, sobretudo, onlines, Periscópio é um guia fino, como pede a deixa.

André Vieira, Editor adjunto da Fina

Este é o periscópio, coluna que indica semanalmente filmes, peças, livros e demais programas culturais para jovens, adultos e cachorros que vivem quarentenados nos lares e nas telas. O objetivo desta coluna matinal é oferecer uma fuga da vida perambulada pelas novelas política, a trama doméstica, a artrite Rome-óffica de maneira pontual, rápida e como os demais textos da Revista Fina, gratuita.

Em textos leves e homeopáticos, o periscópio pretende a sair toda segunda-feira às 7:30h, junto ao café passado e o pão dormido que habitam a primeiras impressões podcastais do dia a dia. Contudo, como o falecido comediante Fausto disse uma vez, citando o célebre “filósofo” Hanz Ernesto:  “um povo é identificado por sua cultura, seus costumes e sua pilantragem” ; assim, nosso país e por extensão, o povo e a pova que nele vivem são definidos não só pela sua gente trabalhadeira e sua música e culinária inestimáveis, mas também, como confessa fausto: “[por] seus pequenos golpinhos e pequenas falcatruas”.

Não isso quer dizer, caro leitor, que a qualidade desta coluna será posta em dúvida. Pelo contrário! É justamente através do irreverente compromisso à informação marinada pelo deboche e pela risada solta que o Periscópio lhes receberá a cada segunda-feira quentinha, após incansáveis horas de pesquisa, carpintaria e vernissage. É vencendo o breu de ideias-de-domingo entre vaivém de ressaca e angústia de madrugada de entrega, que pretendemos fazer as coisas por aqui: se doando ao máximo — embora a cabeça não funcione também — para que você tenha uma semana menos chata e mais despreocupada.

Por fim e sem mais delongas, aqui vão alguns assuntos culturais pra ficar de olho nesta semana. Um grande despertar a todas, todos, todes, todxs, TODUS e até a próxima segunda! (desta vez prometo que entrego na data…)  

A distância

 Exposição Vento, 34º Bienal de São Paulo

Com visita aberta às quartas, quintas, sextas, sábados, domingos (e feriados que caiam nesses dias) a exposição Vento é a primeira mostra aberta à visitação do público desde o começo das atividades on-line da fundação desde o meio de julho.

A novidade é reunir — mas não aglomerar! — visitantes das 11h-19h (até às 20h às quintas) para conhecer o acervo que reúne obras em áudio, vídeo de artistas de 21 países sobre a temática do espaço e da distância que se tornaram comuns no cotidiano de todos.

Nessa imersão junto ao vento — inspirado no filme Wind, de Joan Jonas —, conhecemos uma mostra sem obstáculos, anteparos, paredes ou quaisquer outros objetos que possam blocar nosso contato com as imagens, os sons e o silêncio do vento que vem refolhar as abas de nossas máscaras ao ver o trabalho de artistas.

De entrada gratuita e possibilidade de visitas em libras e com deficiências visuais, agendáveis clicando aqui, a visita no Pavilhão Ciccillo Matarrazzo cumpre todas as exigências sanitárias e mantém a instituição aberta para qualquer dúvida que venha surgir!

Quando? Até 13 de dezembro

Quanto? De graça

Mais informações: clica aqui!     

Arte de casa

Ainda receoso da visitar lugares públicos, né minha filha? Foi pensando nisso, a Galeria Fortes D’Aloia & Gabriel decidiu criar a plataforma Transa que além de conectar e democratizar o acesso a obras de artistas, espaços e coletivos visuais em todo o país, permite que esses agentes se conectem entre si e promovam bate-papos, exposições e workshops com o público.

Dividido em ciclos com previsão de três meses cada, a plataforma propõe um debate e uma exposição para que os visitantes possam conhecer melhor a obra dos artistas e entender as minúcias de seus trabalhos.

No primeiro ciclo, que em teoria teria exibição até 4/11 (embora ainda esteja disponível o site), o Auroras mostra a exposição Acauã e o Fantasma, um diálogo entre a obra de Rivane Neuenschwander e do escultor José Bezerra. Já a  Galeria Superfície, exibe o trabalho da artista Lotus Lobo outra vertente dentro do circuito.

Além disso, na plataforma, que também disponível em inglês, é possível ter acesso todos os ambientes, artistas e espaços que compõem o Transa para conhecer melhor a trabalho de todas e todos que participam do projeto.

Onde? Aqui.

Quando? A partir de agora.

Quanto? De Grátis.

Português-japonês

Arrastado pra estas Terras Brasis pela torrente do hype luso lisboeta, Homens imprudentemente poéticos é uma ótima obra para conhecer o trabalho impecável com a linguagem Valter Hugo Lemos (que adotou como nome de pena Valter Hugo Mãe) imprime em páginas estranhamente familiares a estes habitantes de cá do Atlântico.

Na obra, prefaciada pelo jornalista e historiador Laurentino Gomes, Hugo Mãe ambienta seu livro no cenário de um Japão antigo, onde artesões de leques, oleiros, samurais e clarividentes ainda eram figuras presentes no cotidiano trágico e, ainda assim, poético de imperadores, queixas e o ressoar de pétalas da primavera.

Contada pela perspectiva de Saburo (oleiro), Itaro (artesão) e Mastu (irmã cega de Itaro), a narrativa se prende entre a obstinação de Itaro encontrar sentido a seus atos, aniquilando toda vida animal que encontra em busca de respostas, e o luto de Saburo após ter sua esposa tomada pelas garras de um tigre de tocaia, saído da mata desconhecida onde convivem a natureza mais branda e a floresta de suicidas.

 De prosa deliciosa e por vezes estranha ao próprio entendimento do que nossa língua materna pode fazer, Homens Imprudentemente poéticos é garantia de um mergulho no folclore japonês mais profundo na Ilha, trabalhado com as técnicas mais modernas de se contar uma história.

Disponível na:

Estante Virtual, a partir de R$ 21,00

Enjoei, a partir de R$ 10,00

Amazon, em impresso R$ 34,00, para kindle R$ 8,98

Cidade de partidas

Você já viveu um amor que te atravessou? Te passou fases, driblou parentes e mesmo nunca tendo acontecido, esse sonho ainda te encuca a cachola quando vai deitar as orelhas no travesseiro e dormir o sono dos justos e dos cansados?

É esse o enredo de Cordel do amor sem Fim, peça de teatro que tem como protagonista Tereza (Débora Gomez) que no dia que recebe a proposta de casamento de José (Luciano Gatti), se deixa apaixonar por Antônio (Rogério Romero), marinheiro breve que a conquista pelo olhar e pela promessa de retorno de suas aventuras no Velho Chico.

Apaixonada pelos olhos e a fumaça do cais de Carinhanha, no sertão baiano, Tereza divide a longa espera de seu pretendido com suas irmãs, Madalena (Helena Ranaldi) e Carminha (Patricia Gasppar) enquanto tenta se desvincular de José, cuja teimosia e cabeça quente no casamento o fazem cair na desgraça da água ardente e da sede de vingança.

Aliando de maneira primorosa o texto de Cláudia Barral com a trilha sonora e sonoplastias sertanejas (Marcello Amalfi e Dadi Barral), o diretor Daniel Alvim consagra uma obra de peso do mundo das lives e espetáculos digitais do mundo da pandemia.

Fazendo com que a experiência cênica própria do teatro finque raízes fundas nos movimentos do cinema e do jogo de câmeras que guiam nosso olhar, a peça é leve, imersiva e contagiante; principalmente pela cumplicidade e sinergia dos atores em transportar emoções próprias do teatro ao espetador do outro lado da telinha.

Streamado de maneira impecável pelo projeto #emcasacomsesc, o espetáculo está disponível no canal do youtube do Sesc São Paulo e pode ser visto sem nenhum custo.