Entre asas e crinas
memórias de infância, liberdade individual, natureza, autonomia, experiência pessoal
Na foto que ilustra este texto, o pão de azeitonas feito pela colunista de Fina Ficar pulando obstáculo alheio parece tolice quando cada um tem os seus próprios para driblar Sibélia Zanon Durante a pandemia, gatos e pães ganharam projeção como nunca. Então, decidi vingar aqui o mundo animal, falando de cavalos. A vingança culinária ficará para uma próxima ocasião. Nhoques talvez? Nhoque de mandioca nunca comi e nunca fiz. Substância. Agora fiquei bem tensa com essa descoberta. Quase agitada, precisando ir ao mercado mais próximo. Mas… voltemos ao tema do dia. Tenho uma foto de infância, em que estou com uma camiseta vermelha estampada com um cavalo branco. Não sei quem comprou aquela peça para mim, mas com certeza foi alguém que me conhecia bem. Meu horóscopo chinês é cavalo e, mais do que isso, quando eu era criança eu queria ser um cavalo. Não daqueles cavalos de hípica! Os coitados têm de pular do jeito certo e na hora certa para agradar o dono do estabelecimento e isso não me parecia sedutor. Ficar pulando obstáculo alheio parece tolice quando cada um tem os seus próprios para driblar. Ao contrário, a ideia infantil de ser um cavalo causava em mim uma sensação desenfreada. Cavalos sem rédeas, com as crinas compridas e desgrenhadas ao vento, decidindo a própria direção e delícia. Recentemente desmascarei essa minha preferência, notando que, lá no fundo do rancho, ela não era tão original assim. Isso porque o princípio da escolha era idêntico ao de todas as outras criancinhas, coleguinhas minhas, que preferiam ser pássaro. Me lembro de uma vez em que o cavalo se pôs a correr como se eu não estivesse em cima dele. Entre a consciência de que aquele não era um avião projetado por engenheiros e a sensação de extrema felicidade, dei mais crédito à segunda. O bicho voava feito ave e, de fato, eu não poderia pegar carona em asa alguma de dragão já extinto, mas a garupa do cavalo era minha. Ali, empenhei meu potencial de liberdade… nas costas do cavalo. Mas, um dia mudei. Parei de empenhar meu potencial de liberdade nas costas dos outros quando caí do cavalo. Foi na primeira aula da hípica e precisei fazer duas cirurgias pra consertar o úmero. Se vc ainda não sabe onde fica o seu úmero, garanto que vc também tem um. Ou mais. E eles são peças quebradiças. Os cavalos, projetados pela natureza, esperançavam um lastro de confiança e eu era uma desconhecida sem elo e sem senso de direção. Naquele dia, o cavalo me botou no chão, entrou em férias, resgatou a própria liberdade e parou de carregar cargas alheias. Justo. Carregar o anseio de liberdade do outro não é leve pra ninguém. Já basta que cada um tente suportar o seu. Fato é que passei a gostar ainda mais de cavalos. O úmero espatifado e o coração irmanado. Como já experimentei, não preciso escalar muito bicho mais não: cavalo, boi, elefante, camelo… Vai, querido leitor, carrega aí a sua liberdade sem botar nas costas dos outros e vamos ver se você tem força. Tudo bem, pode dizer que essa é uma ruga de velhice minha. Ruga vincada pela queda e talvez reforçada por um super-homem que era uma vez. Mas, a camiseta vermelha de estampa branca eu ainda quero. Quero vestir e sair por aí com a ventania que eu conseguir suportar dentro do meu próprio corpo. P.S. – Essa crônica tem trilha sonora! Vale ouvir Luedji Luna, Asas Sibélia Zanon, colunista convidada, é jornalista e escritora.
Texto originalmente publicado em Revista Fina