The Birds and other stories
Só isto já adianta o quão atrasada está esta opinião, certo? Este livro é um conjunto de contos, com o qual estava curiosa há vários anos - primeiro, porque vi o filme do Hitchcock há vários anos - tantos que não me lembro exactamente do filme; segundo, porque em 2013 li o Rebecca, há cerca de um ano li o My Cousin Rachel, e simplesmente adoro Daphne du Maurier.
Esta edição tem um prefácio, já agora, sobre a forma como alguns livros de Daphne du Maurier foram adaptados para o cinema, e alguns comentários e críticas sobre essas adaptações e as diferenças consequentes das mesmas - é um prefácio que vale a pena ler, e confesso que esta não é uma frase que eu diga muitas vezes. Não gosto de prefácios.
O nome original deste livro seria The Apple Tree, mas com a popularidade do filme foi reeditado com o destaque aos Pássaros.
Sendo um livro de contos, vou falar deles, um a um.
The Birds
Suponho que a maioria já tenha visto o filme, ou tenha uma vaga noção do filme - como disse acima, não me lembro muito, mas lembro-me da ideia central: os pássaros começarem a atacar os humanos. Lembro-me também de um senhor que bebia muito café, mas posso estar a confundir. Muito possivelmente estou.
Portanto, temos uma aldeia costeira na Cornualha, cenário frequente de Daphne du Maurier. Temos Nat, veterano de guerra que já passou por bombardeamentos aéreos. Uma noite, ele ouve barulhos na janela, e é atacado por um pássaro; pouco depois, o quarto dos seus dois filhos pequenos é também atacado por aves. Nat tenta avisar, mas ninguém lhe liga. A acção da história é em torno das tentativas da família em manter os pássaros agressivos longe da sua casa, impedi-los de partir as janelas, de entrar pela chaminé, fechando-se numa fortaleza na cozinha.
É uma história curta e, por isso, o ritmo é rápido. É assustadora, tem um ambiente de suspense, de desassossego e de ameaça iminente. Dá para sentir o terror que rapidamente assola não só Nat, mas toda uma nação. E a história termina repentinamente - nunca sabemos o que levou os pássaros à agressão. Nunca sabemos como correu para a família de Nat, para todo o Reino Unido. Simplesmente não sabemos. Nat fuma o seu último cigarro, olha para a lareira. Lá fora, o passarapocalipse.
O que poderíamos fazer, se isto acontecesse verdadeiramente?
Monte Verita
Estava a ler este conto numa viagem de comboio um pouco longa (destino: Château de Vaux-le-Vicomte) e ia perdendo a saída, porque, de início, me embrenhou muito. É a história mais longa do livro. Começa de forma estranha - temos um narrador que fala de algo que foi perdido para a ira dos aldeões, e cujo fim não se compreende. Rapidamente temos toda uma história sobre um homem que adorava montanhismo e o seu amigo que adorava montanhismo; sobre como a guerra se meteu no meio das montanhas, e da vida, e como o narrador se sentiu desencantado e perdido e, num movimento oposto ao de Hemingway, etc, mudou-se para a América; e depois o amigo casou-se com uma mulher encantadora e misteriosa, Anna.
Anna também tem interesse pelas montanhas. É uma mulher de uma calma intrigante, que parece procurar algo que não tem. Um dia, ela e o marido (melhor amigo do narrador) vão explorar Monte Verita, e algo acontece que muda a vida dos três para sempre.
Um monte misterioso, com um grupo, ou culto - não se sabe - de pessoas que são "chamadas" para viver em Monte Verita e abençoadas com a imortalidade. O narrador acaba por descobrir a verdade, e é um misto de felicidade e tristeza.
O fim desta história perdeu-me; o tamanho desta história perdeu-me.
The Apple Tree
Uma pequena pérola de comédia macabra. Temos um narrador com quem é difícil empatizar - recentemente viúvo e feliz com o facto, por ser finalmente livre de fazer o que lhe apetece sem levar com o martírio de aturar a negatividade e as infindáveis tarefas da sua mulher (também ela uma personagem exasperante). Se tínhamos a presença eterna da falecida Rebecca no livro do mesmo nome, aqui temos a memória de uma outra esposa, também ela não tão amada quanto isso.
Um dia, o narrador olha para uma árvore no seu quintal - e, sem qualquer explicação, vê nela a sua mulher, a agarrar-se à vida, a tapar as outras árvores mais jovens e bonita, a dar fruto (quando se julgava que estaria morta) que o narrador acha intragável... e o narrador começa a odiar a árvore. A árvore começa a tomar conta dele, dos dias dele.
Homem egoísta que não apreciava a sua mulher, ou uma mulher que deitava abaixo o espírito e a felicidade de quem a rodeava? Atenção - ele não matou a esposa. Não fisicamente; há maneiras e maneiras de matar.
The Little Photographer
Uma bonita e solitária marquesa está de férias com as suas duas filhas pequenas numa pequena cidade costeira enquanto o marido trabalha. Ela casou com um homem mais velho pelo glamour que o seu título e estilo de vida prometiam, mas nada foi o esperado e ela está constantemente aborrecida, numa existência vazia de aparências e aparições públicas. Corresponde-se com as suas amigas de Lyon, sem compromissos, com amantes e, nas suas cartas, dá a entender ter uma vida completamente diferente.
Enfastiada, conhece um fotógrafo local, coxo, que está claramente fascinado com ela e com a sua beleza - parece-lhe a oportunidade ideal para ter o tão desejado caso extra-conjugal, e divertem-se nas encostas durante a hora da siesta.
Ela está aliás encantada com o poder que exerce sobre ele, com a deferência com que ele a trata (em comparação com a indiferença com que ela responde). Mas quando ele começa a ficar demasiado dependente dela, ela não sabe bem o que fazer - e o caso que ela esperava que curasse o seu aborrecimento leva-a para caminhos obscuros... e ela nunca conseguirá escapar.
Kiss Me Again, Stranger
Esta história foi estranha, inesperada, e talvez a minha favorita. Um jovem mecânico apaixona-se por uma empregada de um cinema. Parece um primeiro encontro inocente - excepto que não é bem um primeiro encontro, pois ele segue-a, e ela no fundo aceita; e ela gosta de cemitérios, e pretty girls make graves.
A rapariga é, de várias formas, pouco comum; o encanto dele por ela é banal. Ele vê-a como sua posse, e nem sabe o seu nome. No dia seguinte, após a abandonar num cemitério (quando tinha intenção de a levar para casa), ele compra-lhe uma jóia. Há demasiados sinais de muita coisa errada nesta história. Ela é enigmática - mas o pior ainda está para vir.
Acaba abruptamente, mas talvez seja o meu conto preferido do livro.
The Old Man
Esta foi a história mais confusa do livro, porque a frase final me apanhou completamente desprevenida e mudou completamente o sentido da história.
Temos um narrador que observa/espia a família vizinha que vive perto de uma praia. A família é-nos descrita: o patriarca cruel, apaixonado pela sua esposa; os filhos, a mais nova, dedicada, o rapaz, grande e trapalhão. Pescam durante o dia, levam uma vida simples. Esta história é muito, muito curta. O narrador, a certa altura, presencia o horror; ficamos sem perceber por que é que o narrador não intervém, por que é que nos relata a situação tão apaticamente, por que é que queremos sequer saber do que ele nos conta.
A última frase muda tudo.
5/5 Daphne du Maurier nunca desilude
Podem comprar uma outra edição em inglês aqui.