Profissão: Vilã de Novela
telenovelas, vilãs, cultura pop, comportamento
Transformar-se em vilã de novela é uma arte para poucos privilegiados. Não basta subir nas tamancas. Como diria Bethânia: tem que ser mulher Matheus Lopes Quirino Ela queria ser vilã de novela. Daquelas que gritam e atiram coisas na parede. Cristaleiras e porcelanas da China. Era esse papel que interpretaria para o resto da vida. Agora, qual delas? Dondoca a la Zona Sul do Rio ou maníaca deboxada feito Nazaré Tedesco? A Cruel dúvida a acabrunhava no prelo de uma carreira brilhante. Foi ter com as amigas, tirou umas fitas antigas de um gavetão e começou a analisar estilos, carões e roupagens. Mestras em maldade, as vilãs davam um banho de água fria nas geladas mocinhas. O índice de maldade que ia determinar qual caminho seguir. Até o relógio endoidar, talvez um plano maquiavélico de uma inimiga. Precisava incorporar, se vender como vilã, começar as maldades na praça pra ontem. Afinal, são anos e anos de labuta até ganhar o passe livre das vilãs de carteirinha. Falaria o que quisesse, com imunidade verbal garantida, em alto e bom tom conclamava serviçais e capachos para executar os planos maléficos. O marido: rico — e corno. A sogra, uma toupeira. Seus vizinhos: um bando de suburbano cafona. Nos dias de chuva, ficaria ela a se lamuriar, “eu quero sair, eu quero ver gente, bater perna”. Juntar todas as personagens numa só trama, numa só face, era uma opção, mas logo descartada pelos seríssimos transtornos de personalidade. Se é pra ser má, tem que ser com tudo: figurino, entonação e unhas postiças — ou feitas. Transformar-se em vilã de novela é uma arte para poucos privilegiados. Não basta subir nas tamancas. Como diria Bethânia: tem que ser mulher. Risos maquiavélicos, tramas escusas, traições e uma pitada de complô. É parte da fórmula guardada a sete chaves, como desafios hercúleos a enfrentar antes de entrar para o seleto clube. Nazaré Tedesco, Flora, Carminha, Teresa Cristina, Lívia Marini, Odete Roitman e Raquel. Algumas das cabeças desse venenoso chá das cinco com lugares cobiçados. Publicado por Matheus Lopes Quirino Jornalista, foi repórter e editor-assistente do caderno Aliás do jornal O Estado de S. Paulo. Escreve sobre livros, artes visuais e cultura. Ver todos os posts de Matheus Lopes Quirino
Texto originalmente publicado em Revista Fina