Pretty Guardian Sailor Moon #1
A minha estreia em mangá não poderia ser outra.
Sailor Moon foi o primeiro anime (e quiçá desenho animado, em geral) que eu adorei. Lembro-me de haver umas Barbies das personagens (que eu não tive - tive posteriormente das Spice Girls), vário merchandising absurdamente caro que nunca tive, e de eu ter tido um disfarce feito à mão entre mim e a minha irmã (sim, um cosplay incipiente, se quiserem). Vi em 1995 ou 1996, quando deu pela primeira vez em Portugal, revi tudo no Batatoon com 10, 11 anos, e revi ainda com cerca de 15 no Canal Panda. E estou a rever agora. Como já referi antes, adoro o RPG para Super Nintendo.
Preciso de explicar mais o quanto adorei esta prenda de Natal?
Muitos estarão familiarizados com o anime; no primeiro episódio, passamos muito do tempo a estabelecer a personagem principal, Usagi Tsukino (Bunny, em português). Usagi acorda consistentemente tarde, esquece-se do almoço, está atrasada para as aulas (como sempre), ralham com ela por comer enquanto está de castigo, tem uma nota miserável a inglês, e fica em êxtase quando ouve falar de joalharia. Chora no meio da rua quando se apercebe que é um fracasso enquanto ser humano - é uma personagem com quem é facílimo identificar-nos. Usagi está francamente longe do típico super herói, em termos de personalidade, e nem sequer se assemelha à senhora japonesa típica, sendo preguiçosa, pouco feminina e barulhenta.
E estes traços são-nos apresentados não só como normais, mas como admiráveis. Usagi é uma rapariga adolescente independente e assertiva, e este é, ainda hoje, o ponto forte da série. E é uma miúda absolutamente normal até que lhe aparece à frente uma gata falante.
A questão da joalharia é muito importante porque é o mote utilizado pelos demónios que querem sugar energia para despertar a Rainha Metaria, utilizando assim a loja da mãe de Naru (amiga de Usagi, na versão portuguesa, Sara) para atrair jovens e ludibriá-las.
O primeiro volume do mangá pega precisamente na introdução de algumas das personagens que nos são queridas, começando com este episódio, que lhe é bastante fiel (a série tem muita, muita palha, e há muita invenção dos seus criadores pelo meio). O cristal prateado é um objecto de interesse desde o início; o monólogo interior de Mamoru (Gonçalo, o mascarado) mostra-nos que é precisamente este cristal que ele quer. Isto é surpreendente, porque na série o Mascarado não só não tem monólogo interior, como não tem particular personalidade. E, vá, nunca é explicitamente declarado o seu envolvimento nestes eventos.
Por falar no seu envolvimento: no primeiro acto do mangá (equivalente ao primeiro episódio da série), o Mascarado não faz absolutamente nada, o que é perfeito: ele não é um super herói que se transforma e tem de salvar a Sailor Moon a toda a hora enquanto ela é simplesmente fraca e patética; ela resolve a situação (embora seja fraca na mesma). Ele não tem poderes, não atira rosas, não dá discursos condescendentes. Tem também um aspecto muito mais jovem do que no anime, tornando a situação menos... creepy quando os dois se envolvem.
No Act 2, conhecemos Ami, Sailor Mercury, sem a palha a que o anime nos habituou. Isto torna a narrativa rápida e empolgante, dado que um formato escrito tem de manter o interesse de maneira diferente de um formato audiovisual; porém, não temos o mesmo tempo para nos habituarmos aos personagens. Quando conhecemos Ami no anime, a personagem de Usagi está muito melhor estabelecida. Este momento é também semelhante ao episódio do anime.
O Mascarado volta a aparecer, e envolve-se na acção, mas não para fazer o papel da Sailor Moon: apenas para a ajudar fisicamente. Aqui, os ataques de Sailor Moon são muito mais fisicamente explícitos do que simplesmente atirar uma tiara. É por este acto que ambos se apaixonam, muito mais rápido do que os 30 e tal episódios do anime - e é também aqui que começam a suspeitar da identidade um do outro. Super rápido!
No Act 3, conhecemos Rei, Sailor Mars (Rita, no português), que é basicamente a minha preferida da série (tem a melhor personalidade). O primeiro inimigo contra quem ela luta é Jadeite: Sailor Moon prende-o com a sua tiara, e Sailor Mars queima-o vivo.
Quando Rei se apercebe de que é uma Sailor Senshi, fica chateada por ter de procurar uma princesa. Mesmo com pouco tempo de antena, tem a melhor personalidade.
O Act seguinte é o do baile de máscaras em que uma princesa misteriosa vai mostrar uma jóia secreta do seu tesouro ao público. Isto entusiasma o grupo, porque estão à procura de uma princesa, e Mamoru (bem como Queen Beryl, que quer despertar Metaria), que busca o cristal prateado. Tal como no anime, após a luta com a sombra de Nephrite (que tomou o lugar de Jadeite, queimado até à morte), Usagi embebeda-se e Mamoru beija-a - aqui, Luna defende Usagi! Pergunta se ele é um inimigo (possivelmente por estar a tirar partido de uma rapariga de 14 anos alcoolizada), e ele responde que não sabe.
Act 4: Sailor Jupiter! Makoto (Maria, no português) salva Usagi de ser atropelada.
Entretanto, na escola, Naru mostra às suas colegas a foto da prima dela num vestido de noiva, e está super contente, até que muda completamente de discurso e diz que o noivo da prima está desaparecido há dias, e a prima está tão deprimida que não consegue sair da cama (e ninguém fez nada sobre isso, aparentemente).
O novo plano de Nephrite para reunir energia envolve um manequim de vestido de noiva que atrai pessoas e lhes suga o sangue. Makoto passa pela loja à noite e é atraída por um Motoki (o tipo da arcade) falso e malévolo, a cujos encantos ela cede rapidamente. Mamoru apercebe-se disto e, como não tem poderes absolutamente nenhuns, vai buscar Usagi ao quarto dela para ela poder ajudar a amiga que ainda está a ser atacada. Permite, assim, que Sailor Moon seja principal, central, uma protagonista forte.
Makoto transforma-se em Sailor Jupiter e electrocuta Nephrite até à morte.
Luna pede a Usagi que seja a líder da equipa e oferece-lhe o ceptro lunar (moon stick!). No anime, as personagens questionam tudo o que acontece; aqui, todas aceitam. A Luna diz que é complicado, e elas aceitam essa resposta. É um pouco estranho.
Último acto: Luna e Usagi lêem o jornal e ficam chocadas ao perceber que o Mascarado está à procura do cristal prateado e assume recorrer a crimes para encontrar esta peça. Terá este artigo sido um engodo do Dark Kingdom por motivos ulteriores? Não. Estranhamente, foi o próprio Mamoru, sem motivação real.
Este artigo causa uma reacção da população, que começa, em massa, a procurar pelo cristal prateado, e o Zoisite, agora no lugar de Nephrite, decide utilizar a televisão para procurar o cristal e sugar energia ao mesmo tempo. Assim, faz uma emissão televisiva que aparentemente hipnotiza as pessoas. Entretanto, Mamoru não vê televisão, sendo assim poupado ao ataque de Zoisite.
Luna vai buscar Ami e revela-lhe o seu local secreto, dentro da arcade, e tentam descobrir o que se passa e o motivo pelo qual toda a gente está desmaiada. Entretanto, o Mascarado acorda Usagi à chapada (a energia dela tinha sido sugada), e pede-lhe que faça algo, admitindo que não consegue fazer nada sem ela.
Após Usagi, transformada em Sailor Moon, usar o Moon Healing Escalation e curar toda a população de Tokio, desmaia, e o Mascarado leva-a. Ela acorda na cama dele - na cama de Mamoru, e é assim que se dá a revelação das suas identidades. De modo mundano e não dramático. A ligação entre os dois é meio difícil de apanhar neste volume - claro que a história aqui se passa mais rapidamente que no anime, mas eles nem sequer tiveram uma conversa...? É um pouco vazio. Compreendo que estejam predestinados, e tal, mas incomoda.
E o livro acaba aqui: precisamente no momento da revelação, sem a minha segunda-navegante-preferida, com um ritmo muito mais rápido que a série. É um livro encantador, se não for levado a sério (tenho quase 29 anos, relembrem-se). Não me parece datado - apenas não quero arriscar estragar as minhas memórias de infância.
A arte é muito bonita e tecnicamente diria mesmo perfeita, mas não demonstra acção muito bem; há páginas que têm muita coisa a acontecer, e quando os vilões aparecem há formas estranhas e manchas e nem sempre é perceptível o que é suposto passar-se.
Apesar da rapidez com que avança a narrativa, é possível retirar a essência de cada uma das personagens, e dá para perceber a amizade entre elas (embora por vezes, confesso, pareça forçado). A dinâmica de grupo é interessante; quando não é um livro sobre super heroínas, é um livro sobre raparigas adolescentes a serem raparigas adolescentes. Curiosamente, além de se obcecarem por rapazes, joalharia, etc, também ficam obcecadas pela beleza de outras raparigas.
É um livro profundamente nostálgico para quem, como eu, cresceu a ver (repetidamente) o anime, mas pode não ser ideal para quem não conheça nada de Sailor Moon - para quem se depara pela primeira vez, em 2019, com o conceito.













