Pintura: O Crepúsculo de Veneza/ Claude Monet, 1908. A capacidade de sentir os significados das obras e palavras e de dançar no ritmo das línguas e linguagens também são construções espaciais, temporais e culturais Gustavo Nagib* Existem pessoas que adoram poesia. Outras, não conseguem entendê-la, alcançá-la ou encontrá-la. Há quem não vive sem poesia, mas é incapaz de escrever um verso, ou então de se manifestar poeticamente através do corpo ou da fala. Acredito ser muito difícil se declarar poeta. Como os poetas possuem uma admirável grandeza literária, estética, sensitiva e intelectual, pode-se tornar pretencioso, especialmente ao jovem poeta (e ao poeta jovem), anunciar-se como tal. Talvez seja melhor deixar aos grandes críticos e à História que cumpram o papel de identificar os poetas e o valor poético das produções literárias. Independentemente disso, podemos exercer nossa ação poética. Ela consiste, de modo geral, em explorar as línguas e as linguagens com o intuito de gerar produções com uma densa capacidade de sensibilizar. Ao mesmo tempo, nos cabe uma abertura intelectual, estética e sensitiva para nos envolvermos pelas ações poéticas que cruzam o nosso caminho, deixando que elas sejam uma importante e prazerosa fonte de inspiração cotidiana. É verdade que as ações poéticas nem sempre são produzidas pelos seres humanos. Existem fenômenos e eventos naturais com grande carga e força poética. No entanto, eles precisam que nós os identifiquemos como tais a partir das nossas reações ao observá-los, admirá-los e senti-los. O espetáculo do vento carregando as folhas das árvores, o som solitário e poderoso do mar na noite calma de uma praia deserta, e a abelha pousando sobre a flor totalmente aberta para capturar seu néctar podem ser ações poéticas se assim as reconhecemos a partir de nossas sensibilidades, que são, por sua vez, estruturadas espacial, temporal e culturalmente. Quanto às produções essencialmente humanas, talvez haja uma maior complexidade em acessar os seus conteúdos poéticos. A capacidade de sentir os significados das obras e palavras e de dançar no ritmo das línguas e linguagens também são construções espaciais, temporais e culturais. Agir poeticamente é um processo, assim como permitir-se sentir poeticamente o que chega até a gente. Tem-se, aí, uma grande potência transformadora. * é geógrafo, Doutor pela Universidade de São Paulo (USP) e poeta. Autor das obras “Amar: verbo indefinido” (Mini, 2015) e “Agricultura Urbana como Ativismo na Cidade de São Paulo” (Annablume, 2018)