Juntando as palavras – Uma droga de tabu

Uma droga de tabu

A divulgação na última semana de que o Brasil é o segundo mercado de consumo de cocaína e o primeiro em consumo de crack, trouxe novamente à tona discussão sobre a descriminalização das drogas. Os autores do projeto de modificação da Lei de Drogas defendem que o consumo de qualquer droga não é crime, porém sua venda é.

Já me posicionei contra o assunto em outra oportunidade, pois entendo que diante da estrutura de polícia, justiça e saúde pública que dispomos a descriminalização só iria incentivar o consumo e a violência proveniente desse mercado. Mas, como procuro me informar sobre temas que não domino completamente, resolvi assistir a entrevista de um dos autores da proposta, o antropólogo Rubem César Fernandes fundador da ONG VIVARIO.

Alguns pontos defendidos pelo antropólogo são bem interessantes como quando afirma que o trabalho hoje tem foco em quem comete o crime, o vendedor da droga, e o combate é feito pela polícia. Já o dependente químico não é trabalhado, a saúde pública não tem estrutura para combater o vício.

Rubem também coloca a questão da dificuldade da aproximação dos agentes de saúde e das associações terapêuticas com os dependentes, pois estes não lhes dão abertura e muitas vezes quem consegue os melhores resultados são os religiosos, com o discurso da fé e da conversão religiosa.

Entre os argumentos de Rubem, ao qual conhecimento formal e trabalho prático no assunto não lhe faltam, o que realmente concordo é que o assunto é um tabu. E nesse ponto passei a fazer uma auto-reflexão: como eu lido com o tema das drogas?

Não fui educada para lidar com as drogas. Jamais tive uma discussão sobre esse tema na escola, nem em família. Só aprendi que faz mal. Casos de pessoas próximas com problema de dependência sempre foram tratados com sigilo. Se eu permanecer como a geração passada escondendo o problema em baixo do tapete, como será com meus futuros filhos?

Comparo essa polêmica com o caso das drogas lícitas como cigarro e bebida. Me recordo que quando cursei o ensino médio a onda era fumar cigarro. Todo mundo fumava, e eu que nunca suportei o cheiro ficava desviando da fumaça. Hoje fumar é feio, fora de moda, todo mundo entendeu que faz mal. Pergunto como isso mudou?

E a balada segura? Beber e dirigir sempre foi algo natural em nossa sociedade, todos meus amigos hoje em torno dos seus trinta anos confessam que escaparam por várias vezes de um acidente sério por sorte, tamanho era o porre. Hoje todo mundo escolhe se vai beber ou dirigir. Pergunto de novo como isso mudou?

Se com campanhas fortes de educação, conscientização, legislação e punição conseguimos evoluir no que diz respeito ao consumo de cigarro e bebida, acredito que se encaramos de frente o tema das drogas também podemos ter bons resultados. O que não dá é para fingir que não existe e aí volto a concordar com o senhor Rubem quanto ao tabu, porém não acredito que liberar o consumo e punir a venda ajudaria. Talvez a mobilização de agentes de saúde, terceiro setor, unidades de polícia específicas, enfim, uma política forte que reúna que tem poder legal, formal e social deva ser o primeiro passo no combate ao consumo de drogas. Mas insisto, para combater à droga antes temos que combater a droga do tabu.

Letícia Portella

11 de setembro de 2012