Por Jôsi Ribeiro
Quando atravessei a rua, você estava parada, olhando em minha direção. “Garota, como você é linda!”. Fiz um sinal, você respondeu e caminhou até o meu carro. “Olá, meu nome é Ricardo.”. “Tudo bem? Está passeando? Meu nome é Angélica” Tinha olhos castanhos, mulatíssima, um metro e setenta e cinco, aproximadamente. Nossa, é demais para um homem de quarenta! Mas não conseguia me controlar. E você falava que estudava na católica, amaldiçoava o trânsito caótico, lamentava a desordem das coisas no mundo…
No meio da conversa animada, seu celular toca. Você não hesitou, rapidamente atendeu, para meu desespero. Na barulheira do tráfego, não sei se tive um ataque de esquizofrenia ou coisas do gênero. O fato é que ouvi claramente você falando “Está bem, querida. Daqui a pouco estarei em casa”. Então, tinha uma filha! Quem mais estaria esperando você àquelas horas? E a quem mais você se dirigiria com tanta suavidade? Provavelmente, tinha pai ausente. Pobre criança! Não me senti muito animado com as possibilidades, mas quando você encerrou a conversa, tinha uma expressão radiante no rosto moreno. Certamente, não se importava com essas convenções sociais estúpidas. E é claro que não seria eu o primeiro a levantar a bandeira do respeito pelos bons costumes, não naquele momento.
Você não comentou nada a respeito, o que achei muitíssimo confortável. Continuamos nosso diálogo, até que não agüentei mais. “Que tal um motel, mais tranqüilo e acomodável…?”. Quase perco a direção e mais uma vez pensei estar ouvindo coisas de espíritos perdidos, de criancinhas esquisitas, velhas descabeladas, não sei. Meu estômago comprimiu e dilatou na velocidade cedida pelo coração, porque esse aí parou de vez. Com uma cara de fim de mundo, ouvi-a dizendo calma e pausadamente que era homossexual.
Essa não era, exatamente, a resposta perfeita que eu esperava. Houve silêncio, mas logo foi quebrado com outra ligação para você (bem na hora, ufa!). Apesar de uma falência múltipla de órgãos tomar conta de meu corpo, meu cérebro teve tempo suficiente para recobrar os sentidos e arranjar uma desculpa esfarrapada. Inventei que tinha esquecido um compromisso naquele horário, um compromisso importantíssimo. “Negócios, você sabe.” Você sorriu amigavelmente e disse-me que também precisava ir, que estavam te esperando (afinal, não era uma suposta filha que ligara). Assim, parei o carro, articulei as frases de despedida, quando Angélica, retribuindo meus cumprimentos, ainda disse alegremente:
– Ótimo! Aqui está bem perto da casa de minha namorada.