imagem/wikimediacommons

A autora defende a busca pela verdade a quaisquer custos – a dor da lembrança, o sofrimento revivido, a retaliação política pelo discurso anti-establishment.

Nayara Capelo, colaboração para Fina

Campo de estudos jovem na historiografia, a história oral amplia seus domínios e ocorrências com o passar do tempo; igualmente expandem-se a produção e circulação das literaturas documentais. Do “Diário de Anne Frank” ao “Diário de Zlata”, as narrativas de testemunho crescem a cada ano no mercado editorial, convidando-nos a pensar as questões e desafios desse gênero literário. Svetlana Aléksandrova Aleksiévitch, jornalista e escritora ucraniana, é nome indispensável no mesmo.

Nobel da Literatura em 2015, Aleksiévitch desempenhou um papel pioneiro e revolucionário com suas obras. “Meninos de zinco”, por exemplo, respondeu perante a Justiça Bielorussa na década de 1990: com o desmoronamento da União das Repúblicas Socialistas Soviéticas o saudosismo disparou, institucionalmente endossado por organizações militares e de inteligência russa que perseguiam quem relatasse os desmandos passados. Svetlana foi processada por sua obra acerca da guerra soviética no Afeganistão (1979-1989); à época recebeu apoio nacional e internacional, de organizações literárias a associações de direitos humanos, bem como uma perícia literária independente empreendida por V. A. Kovalenko (diretor do Instituo Ianka Kupala da Academia de Ciências da Bielorússia, membro correspondente da ANB) e M. A. Títchina (doutor em Letras e pesquisador de nível superior do Instituto de Literatura). Recusada duas vezes pela Justiça antes de sua realização, a perícia literária observou e estudou a literatura documental com maior atenção e detalhamento, contribuindo com o despertar das atenções público-acadêmicas para o gênero desde então.

“Meninos de zinco” é um exemplar louvável, portanto, da história oral na literatura. A despeito da equívoca impressão de simplicidade e facilidade, o gênero documental demanda primorosa composição: em Svetlana há a pesquisa de “personagens-testemunha”, nos termos de Kovalenko e Títchina, dispostas a participar da obra; o encontro com cada um dos voluntários, gravado fonologicamente para posterior transcrição; por “fim”, o hercúleo trabalho de seleção e montagem do livro. Trata-se de uma gigantesca operação estético-literária, dada a necessidade, por parte da autora, de escolher entre a publicação do relato único de uma testemunha ou não, sua ordem de ocorrência, as modificações ou omissões de nomes, apelidos e locais para evitar perseguições, as divisões dentro da obra, a adição dos processos de seus julgamentos, trechos de cartas e manifestos recebidos durante sua presença nos tribunais, et cetera

Pode-se perceber aqui a existência de duas histórias: a história do livro, comentada acima, e a história no livro. Esta percorre as anotações da autora quando de sua presença física no Afeganistão, em 1986 e 1988; três divisões nos relatos das “personagens-testemunhas”, ordenadas e nomeadas com passagens bíblicas indicativas do teor dos relatos ali alocados (“Pois muitos virão em meu nome”, “Aquele morre com a alma amargurada” e “Não vos voltareis para os necromantes nem consultareis os adivinhos”); um conjunto dos indescritíveis epitáfios dos “Meninos de zinco” – jovens soldados de 18, 19, 20 anos – e, por fim, textos relacionados ao julgamento do livro. 

Todos esses elementos constroem a grande questão de Svetlana Aleksiévitch. Através do trabalho estético investido na composição da obra literária, a autora defende a busca pela verdade a quaisquer custos – a dor da lembrança, o sofrimento revivido, a retaliação política pelo discurso anti-establishment. Mais: ainda no século XX, Aleksiévitch notou o caráter narrativo que permeia as concepções de verdade e mentira, percebendo como ambos podem ser elaborados, no nível mais profundo e subjetivo dos indivíduos, através de narrativas – algo comum na contemporaneidade, marcada pelo embate entre informação e desinformação. Ao contrário da ex-URSS, que devolvia caixões de zinco lacrados às famílias dos soldados soviéticos e mascarava o verdadeiro inferno afegão com uma fachada paradisíaca, a jornalista sempre buscou ouvir os partícipes da História e suas experiências; em Svetlana, a verdade é construída entre e perante as pessoas. Aliando relatos pessoais e trabalho estético, “Meninos de zinco” é uma obra humana e humanista de leitura indispensável.

A leitura do título é obrigatória tanto em termos éticos quanto morais: Svetlana Aleksiévitch dedicou (e dedica, agora aos 72 anos) sua vida a registrar ad eternum, pelo intermédio da expressão artística possibilitada pela literatura, eventos históricos que jamais devem cair no esquecimento humano. “Meninos de zinco” desperta dor e sofrimento, tornando a leitura árdua e imprescindível, pois a sensação do leitor não poderia, não deveria ser outra. Pela primeira – e talvez última vez -, diversas vítimas tiveram suas vozes, almas e vidas escutadas, publicadas e lidas depois de tão guardadas, repisadas e represadas interiormente. Tudo deve ser lembrado; essas pessoas devem ser ouvidas. Um dever tanto histórico quanto literário está posto à humanidade: Aleksiévitch deve ser lida não apenas pelo dever humanitário de escutar os silenciados e marginalizados historicamente como também pelo dever do leitor em apreciar grandes obras. Como afirmou a autora ao receber a sentença jurídica pelo desfecho dos dois processos contra si mesma e sua obra, “o esquecimento também é uma forma de mentira”.

Assim, visto como “Meninos de zinco” constitui-se na contramão do esquecimento, percebemos sua grande questão – o par temático verdade-mentira. Svetlana Aleksiévitch fala do que queremos esquecer, esconder, não-olhar, na tentativa de não sentir. A verdade é mais difícil de ser elaborada e aceita; o livro a busca, construindo-a pela sinceridade das “personagens-testemunhas” em seus relatos (definitivamente documentos históricos) e pela sensibilidade da montagem estético-literária da escritora. A mentira, por sua vez, é mais fácil de ser obtida e aceita, vide as fake news atuais; quando dos julgamentos, os mesmos (falsos) ideais do comunismo soviético – a “honra” e a “dignidade” dos militares e da nação – foram articulados de forma a lançar colaboradores da obra de Svetlana contra esta. Uma mãe e um militar aposentado, sobrevivente da guerra, foram novamente utilizados e enganados por aqueles a quem a verdade atingiria diretamente. Não se trata de considerar os entrevistados seres puros, perfeitos ou idealizados, mas sim de reconhecer seus lugares de vítimas.

Mas a autora é explícita: a dor supera qualquer verdade. Eis a reflexão necessária aos leitores: até quando, até que ponto, se justifica(rá) todo o sofrimento gerado por situações como a relatada em “Meninos de zinco”? Hoje, a crise dos refugiados; e amanhã? Ataca-se fortemente a ex-URSS, notando-se as correlações entre o fascismo italiano, o nazismo alemão e o stalinismo soviético; e os grandes responsáveis pelas guerras hoje? Indispensável desde os anos 80 e 90, Svetlana Aleksiévitch é indispensável hoje, na nova (?) crise dos anos 20, e continuará sendo: a memória pela qual tanto lutou deve ser valorizada, cultivada e disseminada. Escreve Cecília Meireles, em seu “Romanceiro da Inconfidência”: 

Não posso mover meus passos

por esse atroz labirinto

de esquecimento e cegueira

em que amores e ódios vão […]

Não choraremos o que houve,

nem os que chorar queremos:

contra rocas de ignorância

rebenta a nossa aflição.

Choramos esse mistério,

esse esquema sobre-humano,

a força, o jogo, o acidente

da indizível conjunção

que ordena vidas e mundos

em pólos inexoráveis

de ruína e de exaltação.

TÍTULO DO LIVRO: Meninos de Zinco

AUTOR: Svetlana Aléksandrova Aleksiévitch

EDITORA: Companhia das Letras

ANO DE PUBLICAÇÃO: 2020